Biblioteca de Conhecimento Multiversal

Há uns tempos foi organizado um concurso de contos com o tema "Livros", pelo Colectivo Fénix. Os contos vencedores estão publicados no Fénix Fanzine #2.
Também este concurso estimulou a vontade em escrever um conto e participei no desafio. Além de ter ultrapassado bastante o limite de palavras, acho que não fiquei agradado como o conto ficou finalizado, não gosto muito.
Estava na dúvida se devia ou não publicar o conto, mas pensei por fim que um dos interesses do blog é servir de arquivo e puder avaliar a evolução da escrita, acho positivo também partilhar os menos bons resultados.

O rapaz mirou o imponente paralelepípedo negro que se erguia no centro da sala branca. Deslizou a mão na superfície baça, numa lenta descoberta do objecto, tacteando em busca de uma escondida interface ou alguma coisa que lhe permitisse aceder ao conteúdo do paralelepípedo.  Sem que ele se apercebesse, alguém entrou na sala e surpreendeu-o.
– Rapaz, estava à sua espera. – disse o guardião – Os meus colegas explicaram-te porque estás aqui e qual será a tua missão?
– Não muito. – respondeu o rapaz – Apenas sei que possuem uma biblioteca de valor inestimável, que é importante preservar e manter oculta, que seria um perigo se exposta ao conhecimento público. Que contavam comigo, disseram que sou especial, por isso fui escolhido.
– Sim, rapaz, és especial. – disse o guardião, com um enfado na voz que o rapaz notou – Muito especial. Vou explicar-te qual é a nossa missão e a história sobre esta biblioteca. – disse, de olhos postos no paralelepípedo negro.
O rapaz observou a biblioteca. Era-lhe algo estranho, sem dúvida, não compreendia que tecnologia pudesse desenvolver essa estrutura.
– Esta biblioteca não é do nosso tempo. – retomou o guardião – Foi construída num futuro pouco longínquo. Alguém decidiu criar um repositório com todos os livros de ficção-científica e fantástico publicados em português. Com o passar dos anos, o projecto cresceu e colaborações surgiram. Começaram a incluir livros de não-ficção, as revistas e periódicos, enfim, tudo o que fosse livro. Tornou-se num projecto mundial e suportado por entidades governamentais e académicas, e transferiram o conhecimento de todas as bibliotecas para o repositório.
O rapaz ouvia o guardião, impressionado com a narração, mas interrogava-se porque ali estava.
– Até que se tornaram possíveis as viagens do tempo. Ansiadas por recuperar os livros em falta e ressuscitar os conhecimentos de civilizações desvanecidas, estas entidades arquitectaram um plano e enviaram a biblioteca para os primórdios da nossa história e desde então foram recrutados novos guardiões, às escondidas, pois seria uma arma perigosa para as mentes primitivas. Fomos sempre digitalizando os documentos na biblioteca. Não é fácil, impossível até saber quando algo é publicado, por exemplo. Essa é a missão, fazer a colecta dos livros dos nossos tempos e preservar a biblioteca para as próximas gerações, até chegar finalmente às mãos dos que arquitectaram os procedimentos.
– Não seria mais fácil enviar a biblioteca para o futuro? – interpelou o rapaz – Afinal, se vocês têm tecnologia de viagens de tempo.
– Mas se enviássemos hoje, por exemplo, o que faríamos com os livros publicados amanhã? Há um processo a respeitar, não nos compete duvidar do plano. Olha, até temos a parte mais fácil pois estamos limitados num espaço fixo: o planeta. Daqui a uns milhares de anos acontecerá um cataclismo global que forçará a humanidade a partir para outros planetas, depois para outras galáxias. Nem imaginas as complicações necessárias para reunir os milhares de anos de informações de cada biblioteca espalhada pelos confins do espaço. Digo-te que é preciso milhares de anos a estabelecer comunicações pois também mil milhares de anos durou a expansão espacial da humanidade. E nem te falo de entre os multiversos.
– Então, esta biblioteca… tem os conhecimentos do futuro? – questionou o rapaz.
– Sim, tem tudo do futuro, aqui aprendi a sua história de mundos e eras atravessadas. Só falta mesmo o passado deste planeta, é uma coisa ínfima em comparação, talvez mesmo até dispensável, mas é o que falta. Já é de uma terceira ou quarta viagem, passamos por isto várias vezes, deixamos sempre livros de fora. Interrogo-me o que fizeram com o conhecimento adquirido de milhões de anos futuros, não está aqui registado, não sei se por algum motivo ou protocolo. Como já enviaram várias vezes, imagino que…
– Espera! – interrompeu o rapaz – estás a dizer que tem todo o conhecimento possível? E que eu posso aceder ao conteúdo?
– Sim, podes aceder. E aprender muita coisa. Eu, por exemplo, tornei-me imortal. Espero vir a conhecer os arquitectos. Um aviso só, rapaz, há uma regra fundamental, como deves ter percebido: não podes partilhar a informação a mais ninguém senão aos guardiões. Ninguém está preparado, é demasiado cedo. A civilização ainda não tem maturidade, não passa de uma criança que pinta fora das linhas nos livros para colorir.
O guardião observou em expectativa o rapaz que demorou um certo tempo a absorver a novidade.
Finalmente! A resposta vai ser revelada, a resposta à pergunta que ele sempre quis fazer, aquela que inquietava o seu espírito desde os primeiros momentos que se apercebeu que a vida nunca seria lá muito amiga dele.
– Como posso… existe algum livro que… que me ensina a falar de Amor?
O guardião perscrutou o olhar do rapaz e reconheceu a desesperada ânsia de ter essa capacidade. Já contava com essa pergunta, já antes lhe foi colocada. Aliás, ele próprio também fez essa pergunta a um dos guardiões anteriores.
– Rapaz, muito se descobriu sobre tudo e mais alguma coisa em todo o fio do Tempo desde que o Homem formulou a primeira pergunta. Todo o conhecimento compilado está aqui armazenado. Todas as respostas aos mistérios e às certezas da Vida. Sabemos manipular a Luz, derrotar a Morte e ter uma vida sem pagar impostos. Mas essa capacidade, saber falar de Amor, é justamente a única coisa que foi impossível alguma vez descortinar. É uma arte, mas uma que não se ensina nem se aprende. Isso é algo que ou se tem ou não se tem. Contudo, há um extenso manancial de livros de auto-ajuda, caso acredites nessas tretas.
Um desânimo preencheu o rapaz e apertou-lhe o coração. Nunca conseguirá conversar com aquela linda mulher de olhos azuis. Nunca descobrirá o sabor de um seu beijo, a ternura dos seus braços e o conforto do seu regaço. E apercebeu-se nesse instante o significado de “especial” com que foi distinguido: para se ser Guardião é preciso ser devoto à tarefa e não ter o coração preso a alguém. O rapaz pensou em aceitar a tarefa que lhe estava destinada, afinal não havia nada por que almejar. Só não iria pedir a imortalidade, escusava-se de prolongar a sua miséria de vida para além do necessário.
Só lhe restava o conforto proporcionado pela leitura dos livros. Se calhar iria acabar por prescindir de ler os livros de ficção, muito gostava de perder-se por mundos fantásticos e conviver com personagens encantadoras, mas regra geral as histórias acabam com o herói a braços com a amada e o regresso à solitária realidade é simplesmente amargo. Até os anti-heróis têm essa sorte…
Apenas vai dedicar-se à leitura de não-ficção, ensaios, crónicas e artigos. Mas com um repositório quase ilimitado, por onde começar a aprender? Ou pior, que o conhecimento seja auto-sustentado e indivisível. Se ele fosse directamente a um corolário de todo o conhecimento passado, o que lhe ficaria? Nada. Continuaria às escuras pois não estaria receptivo a essa luz.
Mas aquilo que mais fazia hesitar na decisão em ler os derradeiros livros da humanidade, foi um receio de que lhe fosse revelado qual o sentido da Vida. Suspeitava de uma ideia, que seria uma força tão poderosa que, mesmo ausente, sentia-se tão intensamente, e isso mesmo os livros o comprovariam: a Vida é feita para amar.
Sentindo-se um reles, só lhe restou indicar uma pergunta impensável ao guardião, que devolveu-lhe um sorriso benevolente como resposta.
Como posso aceder à colecção completa da Playboy?
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Experiência

Para promover o lançamento da antologia Volluspa o organizador teve a ideia muito gira de publicar
vinhetas (mini-contos até 300 palavras) para promoção do livro.
As vinhetas deveriam ser do género Fantástico e o livro devia fazer parte das histórias.
O resultado foi bastante positivo e pode-se consultar aqui.
Eu também participei mas não fui publicado. Só resta então publicar aqui no meu cantinho.

Mais um dia, o cientista cumpre o calendário. Avalia os  eletroencefalogramas e demais diagramas nos ecrãs do laboratório. Saca duma caneta da sua bata branca e anota os resultados das experiências com modernas e complexas drogas. Numa incessante procura pelo prazer máximo, e lucrativo, investiga as propriedades de ervas, hormonas, químicos sintéticos, até mesmo estímulos sensoriais de máquinas sofisticadas. Regista também os danos e maleitas nos corpos e mentes das cobaias: as experiências tendem a sair fora de controlo. Mortes.
Algo chama a atenção, onde menos se esperava, num dos ecrãs do grupo de controlo.
Onde nunca nada foi registado, uma cobaia apresenta valores elevados e, mais, ultrapassam em muito os das drogas mais promissoras. O cérebro está plenamente excitado, sem áreas dormentes, é anatomicamente impossível!
O cientista sai do laboratório e atravessa numa correria o longo corredor, povoado por mecânicos sons que abafam os gritos frios e gemidos extasiados das paredes.
Pensamentos mais ligeiros que os pés. Deve ter trocado placebo por droga. Ou ela tomou algo mais. Necessário saber do quê. Deve sintetizar isso. Potencial incrível. Lucro.
Alcança o silencioso quarto, esperançando assistir a um espectáculo medonho: transe, espasmos, delírios, culminando num estado de iluminação: Nirvana.
Entra no quarto luminoso e repara na cobaia. Está sentada, absorta na leitura de um livro. As experiências aborreciam-na daí que tenha adquirido nesse dia o livro. O cientista lê a capa: “Vollüspa- antologia de contos fantásticos”.
Um desânimo ocupa-se do cientista; a usufruição de uma obra assim, criada por um esforço colectivo de mentes criativas, reunidas num raro momento de génio, é algo que nenhum laboratório pode sintetizar. E o preço: somente 13 euros!
Confisca o livro, com a desculpa de que compromete o estudo, dirige-se ao seu escritório e fecha a porta. Experiencia a leitura do livro.
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Desejo d’Alma

Este é o outro conto submetido ao concurso Antologia Lisboa Electropunk (título provisório).
Havia outro concurso, Erótica Fantástica, que terminava também pela mesma altura. O senão deste é que tinha de ser uma abordagem erótica, algo que não me atreveria tão cedo em experimentar pois concerteza só sairia badalhoquice. Pensei depois, num pico de confiança, em arriscar no erotismo, e porque não, desde que assumisse em ser bastante ligth senão ficava mesmo esquisito, isto não é fácil!
Bem, com dois concursos com praticamente o mesmo prazo ocorreu-me brincar com o perigo e submeter o mesmo conto aos dois! Poderia haver complicações, sim, mas já contava que não fosse seleccionado em nenhum :P Portanto este contito é meio erótico e meio electropunk: é um conto eroelectropunk (não resulta bem este termo, afinal).

Continuar a ler

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Canhão de Lisboa

Foi anunciada a lista dos autores integrantes na antologia Lisboa Electropunk (título provisório) a ser publicada pela editora Saída de Emergência. O organizador, João Barreiros, deixou um curioso texto como se procederam os trabalhos, a ler aqui. Uma experiência desagradável para muitos mas tenho um palpite que, passados uns dias na nossa realidade, alguns deles vão sentir desejo de regressar à cave arquitectada pelo organizador. Comigo foi diferente: num local confortável, só diversão :)

Para esta antologia submeti dois contos. Achei que até podia ter hipóteses com um deles, tinha uma estrutura que podia chamar de convincente e o final até está engraçado. Talvez tenha ficado parecido com o conto do organizador em vários aspectos, o final nesse sentido está similar. Pensei que isso seria um mais-valia, era do modo que o teor da antologia ficasse mais homogéneo, daí que segui com a minha ideia.

A publicação do conto fica para mais tarde. Agora fica a vez do segundo, escrito após o término do anterior e por isso livre de pressões. Não que tenha ficado melhor ou até decente. Aliás já contava que não fosse escolhido porque é um flagrante caso de desrespeito pelo regulamento. Para começar a história deve ser passada em Lisboa. Pus em Berlim :P

Devia se possível emular o espírito e conhecimento de um escritor do início do séc. XX, nada de adoptar palavras e termos ainda não criados. Eu acabei por usar alguns que ou não existiam ou ganharam um novo sentido no advento da 2ª Guerra.

Por fim o rigor. Não há nenhum. De um modo desavergonhado escrevi bastante bacorada científica. Aposto mesmo que o organizador, após pesquisar pronta e rapidamente pelo google e wikipédia, tenha exclamado: mas este gajo! isto é só bacorada científica!!

Um conto que serviu mais para diversão que outra coisa, portanto :)

Aqui vai:

Tenho o traseiro dorido e enregelado enquanto me escoltam pelo bosque à entrada da grande Berlim numa manhã fria. A estrada é bastante pedregosa e sinto cada solavanco a maltratar-me enquanto o carro militar avança apressadamente ao destino que nos aguarda há muito. O carro pode ser uma besta de guerra mas não está equipado com conforto, um capricho ignorado pela Grosse Germânica. Escrevinho este apontamento no meu bloco de notas mas as movimentações do carro dificultam-me a escrita. Espreito pela estreita seteira. O céu limpo mas cinzento entristece-me e reparo, sobre o rápido movimento das copas das árvores juntas à estrada, no destaque da ponta da Big Bertha, um enorme canhão, o orgulho da Nação.
O carro entra na clareira onde está situado o canhão e pára a uns metros deste. Saio fora, aliviado por poder relaxar o meu rico traseiro. Admiro a grandiosidade e imponência do canhão perante mim: a sua base é larga como o Palácio de Reichstag, as suas paredes de metal são pontuadas por diversas e enormes varandas, escadas e entradas, e por onde circulam os vigilantes soldados da Grosse por entre as várias instalações interiores do canhão. O seu tubo liso é longo como a Ponte Heidelberg e está disposto num ângulo que desafia o engenho, tal é a altura que a ponta do canhão atinge. O recorte do tubo no céu cinzento faz-me endurecer o pescoço.
O soldado que me acompanha exaspera quando me vê empunhar o bloco de notas.
– Deixa isso, estamos com pressa. – diz numa voz áspera como o bafo que lhe sai da boca nesta manhã gélida.
– Só estou a fazer o meu trabalho. Vá, depois de si. – peço-lhe então, para que o siga pelo canhão. Entramos por uma porta entre colunas de metal, que ostentam um friso entalhado com estátuas de heróis e guerreiros de cobre e estanho, e percorremos em passo rápido os corredores frios iluminados em todas as suas extensões. Encontro um sinal de perigo numa grande porta, atrás desta uma abafada cacofonia de máquinas prende-me a atenção, é um som horrível, que trabalhos podem máquinas a desempenhar no interior de um canhão? O soldado chama-me a atenção para entrar num elevador onde ele está, que me leva ao cérebro da Big Bertha.
– Estava a ver que não aparecias! – exclama o tenente quando entro na sala de operações. No centro está uma mesa grande e oval cheia de papéis e mapas, ao redor está o tenente que fica especado a olhar para mim e os restantes oficiais e várias pessoas de bata branca debruçados sobre os papéis. Vários soldados ocupam-se de máquinas colocadas junto às paredes.
– Com sua autorização, – diz o soldado que me acompanha, fazendo continência ao tenente – a culpa é minha, entrei por engano num caminho – –
– Vai ser disciplinado por isto, soldado! – vocifera o tenente – Fez-nos atrasar a operação Ano Novo, e os nossos soldados em Lisboa correm maior perigo quanto mais tempo lá ficarem!
– Sim, meu tenente!
– Cabo, pode então avisar Lisboa – diz o tenente mais calmamente a um soldado sentado defronte de uma máquina. – que podemos avançar com a operação Ano Novo e vamos já disparar o tiro.
– Sim, meu tenente. – diz o soldado da máquina que activa pequenos interruptores e ergue à sua boca uma caixa afunilada – Cardume, a Águia vai largar o ovo. Repito, a Águia vai largar o ovo.
– Tu és o repórter escolhido pelo Fuhrer, certo? – diz o tenente sem olhar para mim, já concentrado na  mesa – Pode circular por aí e aponta então as acções deste … histórico dia. – finalizando em sussurro.
Ergo o bloco, amoleço o carvão do lápis com a língua e preparava para citar o tenente quando ouço uma voz crepitante da máquina.
– Entendido. Cardume vai olhar o céu. Repito, Cardume vai olhar o céu.
– Meu tenente, o submarino vai colocar-se em posição, ficamos a aguardar.
Os oficiais trocam palavras entre si, gesticulam com os da bata branca, que remexem os papéis da mesa, dactilografam em espécies de máquina de escrever eléctricas enquanto soldados concentram-se em diversos interruptores nas grandes máquinas nas paredes e alguns abandonam a sala em passo rápido. Entre o frenesim deles espreito alguns mapas na mesa, um destes é da Europa que tem desenhadas muitas formas ovais encaixadas, de formas irregulares, cada uma constituídas por pequenas setinhas que redemoinham numa direcção. A um traço grosso, vermelho, curvas setas atravessam ininterruptamente Alemanha, Bélgica, França, Espanha e Portugal, acompanhadas de diversos números e expressões matemáticas. Noutro mapa está “Lisboa” escrita em letras grandes na margem e vejo diversos símbolos desenhados na foz do rio, da mesma cor que o anterior mapa. Aproximo-me da grande janela para apanhar mais luz enquanto escrevinho alguns pormenores, depois espreito pela janela e reconheço algumas formas familiares. Saio para a varanda e, debaixo do largo tubo do canhão que tapa meio céu, observo para além das árvores Berlim coberta de uma densa neblina. Os tons baços e ténues dos edifícios evocam uma certa tranquilidade e ignoram a guerra distante, a milhares de quilómetros daqui.
Não estou sozinho na varanda, está aqui presente um soldado da Grosse, de olhar distraído para a neblina, empunhando uma arma, uma… como é que se chama?
– Olá, qual o nome dessa arma? – perguntei-lhe. Ele tarda a olhar para mim, demorando na resposta.
– Hm? Oh, sim, é uma Feuerspucken. Porquê, nunca viu uma?
– Não estou muito familiarizado, mas sei que dispara bolas eléctricas, certo?
– Sim. O aparelho que carrego às costas serve para isso mesmo, cria energia que descargo depois pela arma. – respondeu-me, curta e secamente.
– E o canhão – aponto para cima para o cano – também funciona da mesma maneira?
– Não, continua a ser por projectéis. Mas também usa electricidade. – Mais não disse. Bom, é certo que ele não é nenhum especialista, não vou adiantar muito com esta conversa.
– Bem, vou regressar à sala, sou ali preciso.
Na sala mantém-se o frenesim, todos à volta dos papéis à mesa e das máquinas que despejam rolos de papéis com alguns dizeres. Os da bata branca aglomeram-se à volta das máquinas, trocando acaloradas
impressões.
– A estação D regista ventos de 20 nós de nordeste, – diz o soldado que controla o aparelho de comunicações – e o submarino regista ventos de 30 nós de norte.
Os da bata branca entreolham-se, acenando as cabeças vigorosamente. Um deles dirige-se ao tenente e este depois dirige-se a outro soldado que também opera uma máquina. Alguns interruptores são accionados e algumas lâmpadas ficam acesas. Ouço um estridente som, alto, insistente e ritmado, vindo do coração do canhão. Assustei-me de início mas, na verdade, o som é bastante agradável, parece-me ouvir mil chicotes a bater nas costas de escravos, uma e outra vez, sem fim.
– O que se passa? – dirijo a pergunta a um oficial presente, nada impressionado com este alto som.
– São as máquinas do canhão que estão a gerar energia, vamos disparar um ôbus de 3 toneladas para a cidade de Lisboa.
– Lisboa?! – exclamo, incrédulo. – Mas está a milhares de quilómetros, isso é possível?
– Espero bem que sim, mas também desconfio. Os cientistas é que dizem que conseguem, e já fizeram alguns testes e dispararam para o Mar Báltico. Pequenas ilhotas ficaram completamente desfeitas, tal é o choque e a velocidade do ôbus. Contudo, este canhão é o primeiro desta envergadura e Lisboa fica 5 vezes mais distante. Mas seria sensacional, sim. Lisboa… não, a Europa inteira, tremeria de terror ao descobrir este nosso poderio. Arrasar um bairro inteiro só com uma bala, você imagina?
– Impressionante, e isto sem alocar os nossos soldados nem pilotar os nossos dirigíveis! Logo Lisboa, a sua queda estratégica seria o princípio de uma definitiva derrota do Eixo Ibero-Britânico!
– Sem dúvida nenhuma!
Dirijo-me outra vez à janela, expectante pela visão do tiro. Parece-me que o tubo do canhão está muito próximo sobre as nossas cabeças mas o soldado na varanda ali permanece, despreocupado, por isso não devo ter que recear. Berlim desapareceu, engolida pela neblina que agora afaga as árvores próximas da clareira onde está o canhão.
– Tudo pronto? – pergunta o tenente.
Fixo o olhar na ponta do longo tubo.
– Fogo!
Um ríspido som ecoa pela sala, fazendo-me estalar os ouvidos. Não consegui seguir a trajectória do projéctil, mas reparo ao longe, no meio do céu, um ponto que se move até desaparecer da vista.
– Cardume, às 35 por 9 local, a Águia largou o ovo! – diz o operador das comunicações. – Repito, 35 por 9, Águia largou o ovo!
Os cientistas dão pequenos apertos de mãos e os oficiais mantêm o silêncio. Cruzam-se os braços, sentam-se em algumas cadeiras da mesa. Agora é só aguardar.
Aproximo-me de um cientista que está sempre ao lado do tenente, pode talvez dar-me algumas informações técnicas sobre o canhão.
– Suponho que você é o responsável pelo canhão?
– Suponho que você é o repórter.
Esboço um sorriso.
– Certo. Acho que é um canhão impressionante e estou interessado no seu funcionamento. O que você me pode dizer sobre isso?
– Muito bem. – disse, após consultar o relógio no seu colete – Para começar, a principal diferença entre este canhão e os predecessores é o sistema de propulsão. Para disparar uma bala usávamos a pólvora, ou uma carga explosiva similar, e a explosão decorrente empurrava a bala que, confinada num longo tubo, só teria uma determinada projecção.
– Sim, sim.
– Este canhão usa o mesmo princípio de projecção, daí adoptarmos o tubo longo, mas a propulsão tem como base a electricidade. Mais exactamente, os campos electromagnéticos. Se um campo electromagnético repulsar um corpo,  com a mesma carga eléctrica, ao deslocar o campo electromagnético também deslocaremos o corpo. Esta ideia prometia muito, pois é fácil e rápido deslocar os campos magnéticos, basta passar electricidade por um circuito, olha, como o telégrafo faz, os sinais eléctricos são transferidos quase imediatamente. Se aplicarmos esta ideia num canhão seriamos capazes de velocidades de escape incalculáveis, foi essa a visão do nosso projecto. Todavia ainda tivemos de passar por vários obstáculos, infelizmente a ideia não se cumpriu em pleno.
Imagina então um tubo oco, da mesma grossura que o lápis que você segura, com uma pequena esfera no seu interior. Se fizermos atravessar uma corrente eléctrica pelo tubo a esfera vai movimentar-se no seu interior, mas será coisa pouca, pois a corrente atravessa o tubo instantaneamente, coisa que a esfera não faz. Com repulsão à frente e atrás a esfera mantém-se estática. O que fizemos foi ligar e desligar a corrente, a um frequência elevada, e os pequenos impulsos eléctricos deslocam progressivamente a esfera, dando assim a projecção esperada. Isto resolveu o problema da deslocação mas a velocidade resultante é confrangedora. Como a corrente eléctrica é mais rápida do que a esfera, esta sofre sempre um atraso provocado pelos impulsos que a ultrapassam. Pensamos nessa altura que havia um erro de concepção desde o princípio, que não visualizamos bem os movimentos dos campos magnéticos. Quase perdemos o investimento a favor de um projecto qualquer que somente promovia uma diferente qualidade de explosivo, mas uma ideia engenhosa ocorreu-nos! Afinal só tínhamos de alguma maneira de diminuir a influência do magnetismo à frente da esfera, ou mesmo dissipá-la! É bastante simples o que tivemos de fazer… hm… espera… acho que está na altura…deixa ouvir… – diz ele, sacando do relógio do colete.
Ouço com expectativa a máquina de comunicação. Já?! Já atingimos Lisboa, foi assim tão rápido? A mensagem não tarda a surgir.
– Aqui estação A, captamos o objecto, está no rumo e altura esperados! O vento está a soprar de nordeste a 15 nós.
Afinal parece não ser o que esperava, apesar do visível entusiasmo na sala.
– Não atingimos Lisboa, então?
– Ah, não. Ainda está nos ares de França, a estação que agora nos reportou está a 100 km a leste de Paris, ou o que resta dela. Ainda faltam 27 minutos até confirmarmos o embate em Lisboa. – diz o cientista. Ui, ainda temos que aguardar muito…
– De volta ao canhão… onde íamos nós?
Eu sei lá, ouvi as palavras todas mas não percebi nada! Nem me lembro que pergunta fiz e se pedia isto tudo, a única coisa que escrevi, a duplo sublinhado, foi “Não entrevistar cientistas!”.
– Ah, sim, a velocidade! – continua ele – O que pusemos em prática para obter a velocidade pretendida foi colocar o tubo onde fica o projéctil dentro de um outro tubo, que é aquele que você vê pela janela. À volta do tubo interior colocamos o circuito eléctrico, que serpenteia pelo tubo como se fosse um parafuso. E aqui reside o truque, o espaçamento entre os “aros” que estão na base do parafuso, por cima das nossas cabeças, é muito estreito, e progressivamente o espaçamento vai aumentando entre os “aros” até aos da ponta! A influência do magnetismo nos “aros” à frente do projéctil é menor que a influência do magnetismo dos “aros” atrás do projéctil, e a própria progressão do espaçamento contribui para acelerar o “disparo”! Pois a distância a percorrer pelos impulsos electromagnéticos no parafuso é sensivelmente menor quanto mais perto da ponta. Uma coisa engraçada também, é que a forma do parafuso faz rodopiar o projéctil, favorecendo a precisão e estabilidade do projéctil, algo que já fazemos com o canhão padrão. Se tivéssemos começado a pensar por este ponto, talvez a ideia do parafuso surgisse mais cedo e por esta altura a guerra já teria terminado! – brinca ele, com um sorriso entusiasmado.
– Olha, a que velocidade vai o projéctil? É o que mais interessa saber.
Ele perde o sorriso bruscamente, mas recupera-o um pouco.
– A aproximadamente 4000 kms por hora! São 6 vezes mais do que com um canhão padrão!
– Impressionante! Quatro mil…
Ele olha para o relógio por algum tempo e depois para a máquina. Mais algum tempo passa até que se ouve depois uma nova mensagem.
– Aqui estação B, visualizamos o objecto! Rumo e altura nos conformes! O vento sopra de norte a 25 nós.
– Hm, o vento mudou… – diz o cientista com ar preocupado – Sopra com mais força mas não deve ser significativo.
– Onde já vai? – pergunto.
– Passou sobre La Rochelle, um cidade portuária francesa.
Já está sobre o Oceano Atlântico! É tão, tão rápido, imagino-o a sobrevoar implacavelmente entre as nuvens, muito acima da água… que excitação poder seguir o curso em tempo real.
Ele retoma a aula de Física, explica a força exigida pelas máquinas andares abaixo de nós, mas não o ouço, a minha mente está no Oceano. Interrompo, e peço-lhe se podia enviar documentação para a minha morada, que escrevo-lhe, assim fica mais fácil para todos, já não consigo pensar direito e a adrenalina percorre-me pelo corpo. Os cientistas estão ocupados com as máquinas e papéis, os soldados estão pacientemente estáticos, mas eu não consigo ficar quieto, preciso de ir à varanda, de espaço!
O nevoeiro tornou-se espesso e o exterior é agora somente um branco brilhante, já mal se vê a ponta do longo tubo! A luz irradiante faz-me cerrar os olhos. Dói-me menos observar o Sol, o círculo branco perfeito no oceano de cinza. A imagem acalma-me.
Retorno à sala, os cientistas estão de redor da máquina de comunicações, parecem preocupados.
– Cabo, comunica a estação D para reportar a força do vento em cada minuto. – diz um dos cientistas.
– Estação D, deve reportar a força do vento em cada minuto, ficamos a aguardar.
– O que se passa? Qual é a estação D? – pergunto ao cientista-chefe.
– Aveiro, uma cidade a uns 200kms a norte de Lisboa. – diz o cientista num sussurro – Tememos que a mudança do vento possa ter desviado o projéctil da trajectória prevista. Já tínhamos em conta estas variáveis, claro, a própria trajectória forma uma curva e por muito que queiramos a precisão não será fiável. A questão agora é saber se Lisboa será atingida ou teremos de usar outro projéctil.
– Podemos ficar aqui o dia todo, se for preciso. – diz o Tenente, quebrando o seu longo silêncio – Enquanto temos as estações a comunicarem as direcções dos ventos, não precisamos de ––
– Aqui a estação C, avist *zrzrz* o objecto! Calculamos que está fora do rum*zrz*evisto, novo rumo 010º. Vento vindo de norte a 15 nó*zrz*
– Então, há problema? – questiona o tenente aos cientistas, que precipitaram-se para os papéis e máquinas – Devo ordenar o carregamento de novo ôbus?
Enquanto eles estão de volta dos cálculos, pergunto ao cientista-chefe que tal lhe parece a situação.
– O projéctil entrou agora em Espanha, mas ainda teremos de estudar o rumo actual. Creio que ainda vamos atingir Lisboa.
Ok, já vai em Espanha, a terra maldita, repouso de nossos irmãos. Já não falta muito.
– Aqui *zrzrz*ção D, vento de norte a 10 *zrzrz*.
– A comunicação parece estar a falhar, o que se passa? – pergunta o tenente.
– É capaz de ser o nevoeiro, está muito cerrado. – supõe um soldado perto da varanda.
– Ok, já efectuamos os cálculos. – diz um dos cientistas – Cremos que a mudança não foi muito significativa, contudo já não deveremos atingir nenhumas das áreas estratégicas, o projéctil vai mais para baixo, para junto à foz.
– É só estalagens e armazéns, nada de importante, mas desde que acertemos em algo cumprimos o objectivo. – conclui o tenente.
– Senhor, no pior dos casos o embate será na foz, onde está o submarino. Sugerimos assim que ordena que o submarino se afaste.
– Espera, deixa-me pensar. – diz o tenente – Tens a certeza?
– A certeza não temos, mas sugerimos veemente.
– Ok, mas não muito longe, precisamos que ele confirme sem demora se atingimos Lisboa, ou mesmo se é preciso correcções de trajectória. Cabo, comunique ao submarino para afastar 5 léguas.
– Certo. Cardume, deve recuar 5 braçadas, repito, deve recuar 5 braçadas.
Todos na sala de olhos pregados ao Cabo e à máquina. Nova mensagem surge.
– A *zrzrz* vento de n*zrzrz* nós.
– O quê?! – exclama o tenente – O que é que ele disse?
– Era uma mensagem da estação D, seguramente. – diz um cientista – Seria demasiado rápido para ser a resposta do submarino.
– Mas o que é se passa com a máquina, Scheiße!!
– É provável ser por causa do nevoeiro…
Scheiße, primeiro os ventos, agora os nevoeiros, Cabo, faz qualquer coisa, amplifica o sinal, qualquer coisa, homem!
– Estação A, deve aumentar os sinais para a frequência 5 Mhz, passaremos a sintonizar neste espectro, estamos com problemas de recepção.
– Diz também para o submarino se afastar, soldado! – suplica um cientista. – Nem a estação A deve ter apanhado a mensagem!
– Certo! Cardume, deve recuar 5 braçadas, repito, deve recuar 5 braçadas.
A tensão, Mein Gott! Mas eles estão a ouvir-nos? Ninguém mais solta um pio.
– Daqui a estação D, avistamos o objecto! Calculamos que está fora do rumo previsto, novo rumo 010º. Vento vindo de norte a 20 nós.
– Ouve-se na perfeição! – sussurra o cientista-chefe – O projéctil deverá atingir Lisboa em minutos.
Puxa devagar o relógio do seu colete. Ninguém mais abre a boca. Ninguém se mexe, não entramos em euforia para não agoirar o momento, mas sentimos a tensão e o orgulho a palpitarem na sala. Nem me atrevo a respirar.
O tempo parece alongar-se até que por fim um suspiro do cientista-chefe.
– É agora. Atingimos Lisboa.
Demoramos todos a reagir. O Cabo desperta-se após um tempo e aproxima a caixa tremelicante à sua boca.
– Cardume, confirma o ovo na praia? Repito. Confirma o ovo na praia?
Um silêncio longo insuportável.
– Cardume, confirma o ovo na praia, repito, confirma o ovo na praia?
Silêncio.
– Se calhar é o nevoeiro. – diz timidamente alguém.
Tenente e cientista-chefe entrecruzam os olhares, não convencidos que o problema seja o nevoeiro. Partilham um olhar de assombro, arregalando os olhos.
Qual seria a probabilidade?

FIM

Nota: Inspirada livremente no Canhão de Paris.

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A Carta

Conto submetido para o 4º Desafio Literário d' A Irmandade.
Pode também ler aqui.

– Bom dia, rapaz. Vim saber do teu trabalho, que tal te correu? – disse o Padre ao entrar no pequeno quarto cheio da luz da manhã. Sentou-se à mesa onde trabalhava o rapaz e colocou na mesa uma pequena pasta com folhas soltas e uma Bíblia. O rapaz estava satisfeito com o que fez ao longo da manhã e tinha aguardado com paciência pelo Padre.
– Correu bem, senhor Padre, apontei tudo o que era necessário ser apontado. – disse o rapaz.
– Muito bem. Lê-as, então, para eu ficar a saber.

Encontramos entre eles um grupo numeroso de cegos, em tão alto número nestas aldeias que achamos não ser natural. Todos os cegos deram as suas mãos para não se separarem. Eram de várias idades, algumas eram crianças e outras eram velhos. Não tinham tintura no corpo ou carapuças de penas amarelas e verdes e vermelhas como os outros. Os outros tinham tintura negra e azulada. Nenhum deles não era fanado, mas todos assim como nós. E com isto nos tornámos e eles foram-se. À tarde saiu o capitão-mor em seu batel com todos nós outros, e com os demais  capitães, em seus batéis a folgar pela baía, a carão da praia, mas ninguém saiu em terra por o capitão não querer, estava quase noute e era a altura em que os demónios aparecem e vagueiam pela terra, assim sabíamos nós. Não chegou ainda a altura de enfrentar os demónios.  Sai o capitão com todos em um ilhéu grande, que na baía está, que de baixa-mar fica mui vazio mas é de todas partes cercado d’água, que não pode ninguém ir a ele sem barco ou a nado.
Ali folgou ele e todos nós outros bem uma hora e meia. E vigiamos os movimentos da praia, eles se tinham recolhido da praia e da floresta não se viu nada deles nem dos demónios e ficamos sossegados. E, então volvemo-nos às naus já bem noute.
Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão d’ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu, para pedir protecção contra os demónios e nos fosse concedida coragem na nossa tarefa.

– E foi este o primeiro apontamento com os demónios, senhor Padre. – disse o rapaz, aprendiz de copista. O Padre, que estava do outro lado da mesa, acenou a cabeça em consentimento. Recolheu a folha do rapaz, afastando a longa manga do seu hábito preto. O rapaz prosseguiu a leitura da carta.

Acabada a pregação, moveu o capitão e todos para os batéis, com nossa bandeira alta; e embarcámos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bartolomeu Dias em seu esquife, por mandado do capitão, diante, para que avistasse a praia e acenasse-lhes, e se receios tivesse se volvesse atrás.
Como eles viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra, e outros os não punham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo; e os vazios com a barriga e estômago eram da sua própria cor. E a tintura era assim, vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho. Este, que os assim andava afastando, parecia estar possesso, esbracejava e berrava, apontava para a terra e lhes dava chapas d’água. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias. Quis acenar a pedir-lhe calma mas levou um sopapo dele; foi a primeira agressão desde que chegamos a esta terra. Mais homens do esquife se meteram na água mas ouviu-se um estrondo da praia que os estancaram. Olharam para o local onde aquele que falava muito apontava e o Bartolomeu Dias, que estava mais perto no seu esquife, descobriu uma névoa amarela que pairava por entre as árvores e que ele achou ser muito bruxedo. Era o que estávamos à espera de encontrar ali. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às naus, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.

– E a seguir, – mencionou o rapaz, sob o olhar atento do Padre – umas linhas mais à frente, a referência à empreitada que levava a expedição portuguesa.

E, tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia.
E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, e confirmarmos a presença de demónios e que estávamos capazes de cumprir a empreitada que nos foi destinada por Vossa Alteza e que homens anteriores como o comandante Vasco da Gama não assim fizeram. E perguntou também se conseguiríamos em poucos dias livrar a terra dos demónios antes de irmos de nossa viagem, para Vossa Alteza melhor mandar descobrir e saber mais da terra. E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. Outras falas, poucas, apontaram o facto do demónio ter sido visto de dia e que se devia à nossa presença esse tal acto contrário. E nisto concluíram.

– Podemos concluir que conseguiram cumprir a tarefa. – disse o rapaz – Afinal foi a expedição do Pedro Álvares Cabral que ficou na história que descobriu o Brasil, não é?
– Sim. Faz sentido que tenham encoberto a descoberta da terra por muitos anos, não seria desejável reivindicar uma terra maldita com demónios. Uma vez derrotados, podíamos dizer que a terra era nossa e que faríamos ali fortuna.
– Senhor Padre, acha que ainda existem demónios no Brasil?
– Esta carta já tem mais de duzentos anos. – disse o Padre – Não é certo mas não duvido que ainda haja. Há mal nos confins inexplorados do Brasil tal como há mal em todo mundo. Ainda não terminamos o nosso trabalho. Continua, rapaz.
O rapaz retomou a leitura da carta, localizando a próxima menção a demónios que só surgia páginas depois de parágrafos alusivos aos contactos com os índios além do rio.

Nem nós ainda até agora não vimos nenhumas casas nem maneira delas. Mandou o capitão àquele degradado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles, o qual se foi e andou lá um bom pedaço. E à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. O homem estava lívido e mudo. Não nos reconhecia e em bruscos gestos se afastava e sempre barrado era ora por nós ora por eles. Agarrámos-lhe e apelávamos à razão, com pancadinhas e o sacudindo, até que ele recuperou o tino e nos contou que esteve a metros de uma serpente de luz e fogo, enorme e largo como o rio desta terra. Rastejava por entre árvores mas não as lavrava num fogo e sua língua estalava como uma centelha e possuía um único olho. A sua descrição é coincidente com os dos relatos dos compatriotas que descobriram esta terra há 15 anos e, como Vossa Alteza bem o sabe, por esta razão vosso primo direito D. João II escondeu a descoberta desta terra e não mais se atreveu em fazer partir homens para estes lados do mundo. Depois contou-nos que tentou fugir da serpente mas a sua visão turvava e só via branco, ignorando o que lhe aconteceu até ter sido trazido para a praia. Levamos-lhe para a almadia onde adormeceu de cansaço. E assim nos tornámos às naus, já quase noute, a dormir.

– Senhor seja louvado, o homem tinha ficado louco… – disse o rapaz. O Padre encontrava-se ao lado dele, atento ao seu rosto e à sua voz.
– Como o homem era um degradado, mandavam-lhe sempre entrar na floresta em vez de escolher um qualquer marinheiro. Um dia não foi sozinho, senhor Padre, com ele foram mais dois degradados e o marinheiro Diogo Dias. Tinham de passar noite lá a todo o custo. O capitão não quis arriscar os seu homens mas decidiu avançar com a empreitada. Ouve só o que fizeram, senhor Padre.

E misturaram-se todos tanto connosco, que nos ajudavam deles a acarretar lenha e meter nos batéis e lutavam com os nossos e tomavam muito prazer. E, enquanto nós fazíamos a lenha, saíram de uma nau duas almadias que transportavam as peças da arma. Estavam enroladas numa vela e atadas por cordas às almadias.  Eram pesadas e grandes, os homens tiveram de estar de pé sobre elas por não haver espaço para eles. Tardaram em chegar à praia e foi com muito esforço que trouxeram as peças, quase todos os homens arrastaram-nas com cordas sobre a areia branca até depositarem-nas perto da floresta. Os dois ferreiros que viajavam connosco trataram de fazer as fogueiras com a lenha que fizemos e colocaram ali as peças de ferro as quais martelavam de quando em vez. Enquanto estávamos em trabalhos não se sentiu a presença de demónios, o que nos sossegou muito e deu gáudio às pessoas que vieram da floresta. Muito deles vinham ali estar com os ferreiros para verem a grande cruz de ferro que fazíamos, porque eles não têm cousa que de ferro seja. Era já a conversação deles connosco tanta, que quase nos torvavam ao que havíamos de fazer. E o capitão mandou a dous degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e a outras, se houvessem delas novas, e que, em toda maneira, não se viessem a dormir às naus, ainda que os eles mandassem. E assim se foram. Enquanto andávamos nesta mata, a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos, mas eu não veria mais que até nove ou dez. Também achamos curioso que não tenhamos visto nem vacas nem coelhos nem galinhas, nenhum gado para comer nem para lavrar, que campos de cultivo eles não têm. Os demónios devem tê-los assustados e só ficaram as pessoas que, sem a força e peles dos animais, andam expostos ao sol e chuva. Muitos estão cegos e loucos mas optaram por ficar aqui entre demónios, temos de saber como fazem mas não hoje, que a arma não ficou pronta. E acerca da noute nos volvemos para as naus com nossa lenha.
À  quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia muitos, segundo das naus vimos, que seriam obra de trezentos, segundo Sancho de Tovar, que lá foi, disse. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degradado, a que o capitão ontem mandou que, em toda maneira, lá dormissem, volveram-sé já de noute, loucos completamente a ponto de serem amordaçados e amarrados e a tripulação tentou recuperar as suas razões enquanto que o Capitão convidou os seus capitães e engenheiros a debater sobre como procedermos, pois ninguém é obrigado a levar a tarefa a cabo, já chegamos até ali e a arma ficou montada, mas ninguém deveria arriscar-se no confronto com os demónios. O capitão Bartolomeu Dias foi dos que veemente sugeriu partir sem demora para Índia pois já tinha falhado nessa missão uma vez e relembrou-nos que a nossa missão sempre foi a Índia. As opiniões de todos foram divididas entre o medo, dúvida e lealdade. E assim não foi mais esse dia que para discutir seja. O medo espalhou-se pelas naus ao ser partilhado o relato dos degradados. A noute foi silenciosa, ninguém atrevia a mencionar algo mais sobre os demónios como se isso fizesse materializá-los no interior da nau, na noute escura. Tal a antecipação, a muito custo dormimos, sonhando com a paz.

– Que pesadelo devem ter passado. É horrível, senhor Padre. – disse o rapaz.
O Padre colocou a mão no ombro do rapaz em jeito de conforto. Acariciou-lhe o pescoço, depois deslizou o polegar até ao lábio inferior do rapaz.
– Não, foram uns valentes. Se eles quisessem teriam retomado a viagem até à Índia. Ficaram mais tempo no Brasil porque sabiam ter nervos de ferro. Que mais parágrafos há, rapaz?

Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso em tal maneira que, se os homem todos quisera convidar, todos vieram. Porém não trouxemos esta note às naus senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dous, e Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem, e Aires Gomes, outro, assim pajem. Em temendo que o confronto nos possa provocar danos, tantos a nós como eles, o Capitão-Mor decidiu permanecer-se na nau com os seus capitães e alguns deles para guardá-los como espécies sãos. Os que o capitão trouxe era um deles um dos seus hóspedes que à primeira, quando aqui chegámos, lhe trouxeram, o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão os quais foram esta noute muito bem agasalhados assim de vianda como de cama de colchões e lençóis por os mais amansar.
Os mais venturosos e fortes carregaram a cruz e penetraram na floresta. Os restantes de nós, marinheiros, engenheiros e sacerdotes, passaram a noite na praia, ali ficando até, se caso ocorrer, resgatar dos demónios os homens que carregavam a cruz, ou caso contrário e o confronto tiver um resultado lamentável, recolher-se nas almadias e ter com os capitães e abandonar de vez estas terras. Acompanhei os homens da cruz, foram seis deles, três em cada braço da cruz, que a seguravam aos ombros e a arrastavam pelo chão. Nós fomos muito devagar, tanto pelo peso da cruz como pelo peso do medo. Eles vieram ali ter e não nos quiseram ali, como todos os dias fizeram, mas não causaram mais resistência, talvez por o nosso esforço lhes ser estranho, e depois nos ajudaram a levar a cruz. Ouvíamos os demónios além, nos limites da aldeia, e enxugámos os passos. Os seus brilhos iluminaram o nosso caminho e pudémos ver melhor à nossa frente, os que acompanhavam-nos correram em direcção aos brilhos e sentaram-se aos lados dos seus irmãos, que já ali estavam, junto às árvores. Eles mantinham os seus olhos fechados enquanto os demónios os atravessavam como se fossem uma mera névoa. Um demónio olhou para nós e aproximou-se rapidamente. Soltámos uns berros e largámos a cruz. A dança das sombras das árvores que ao galope do demónio acompanhava fez-me ficar tonto e tropeçar e vi os nossos homens com maleitas e sangue nos seus rostos o que me obrigou de fechar os olhos. Quando voltei a ver eles já se encontravam bem, nem sangue nem nada, e olhámos para trás e deixámos de ver o demónio. Voltámos a carregar a cruz e entrar na aldeia e com satisfação, nossa e deles, vimos os demónios fugirem para longe. Deixamos a cruz ali e fomos à praia contar a boa nova e regressamos às naus.
E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra, corri nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser melhor vista. E ali assinou o capitão onde fizessem a cova para a chantar, e, enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, abaixo do rio, onde ela estava.
Trouxemo-la dali com esses religiosos e sacerdotes diante, cantando, maneira de procissão. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos assim viram vir, alguns deles se foram meter debaixo dela a ajudar-nos. Os sacerdotes ficaram muito exaltados pois ficaram convencidos de que foi o amor de Deus que afugentou os demónios das terras mas saiba Vossa Alteza que os engenheiros comprovaram as nossas suspeitas que isto se deveu às propriedades do ferro, tal como é de vosso conhecimento, assim também aconteceu quando o Cristovão Colombo chegou às terras do norte e ali ergueu um sino de ferro e nunca soube de demónios. E, acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de ferro com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço, pela qual cousa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz e ali, a um e um lançava sua, atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha beijar e alevantar as mãos. Um engenheiro sugeriu até que a tintura nos corpos serviriam para protege-los tal como com as cruzes. Entregamos também a eles a pequena cruz de ferro que usamos no ilhéu no Domingo de Pascoela para que enfrentassem os demónios por toda a terra.

– E foi este o último trecho que referencia os demónios ou a cruz de ferro.
– Bom trabalho, rapaz. – disse o Padre. Levantou-se e pegou em algumas folhas limpas, de uma recente brancura, e entregou-as ao rapaz.
– Agora, rapaz, vais copiar o conteúdo da carta para estas folhas sem copiar esses parágrafos que marcaste. Se for preciso, estás livre de inventar partes de narrativa para colmatar os buracos e manter a coêrencia como for possível. Não te preocupes em imitar a letra do autor pois ninguém viu o seu aspecto, não tem meio de saber o que fizemos.
– Excepto, claro está, o ministro, que pediu-nos para validar a carta.
– Excepto o senhor Ministro José Seabra da Silva que, lamentavelmente, encontrou o documento no Arquivo da Torre de Tombo de qual é o guarda-mor. Mas pior foi ter noticiado a descoberta. Vou já dar conhecimento da situação ao Cardeal da Cunha. Sua Eminência deverá ter uma conversa desagradável com Sua Excelência, podemos contar com isso. O senhor Ministro vai desejar nunca ter desenterrado assuntos do passado.
O Padre pegou  no seu chapéu e preparava-se para abandonar o quarto.
– Deixo-te, então, ao teu afazer. Já volto.
– Senhor Padre, uma última coisa. Porque estamos a cortar as referências aos demónios? Não fica mais fácil para o nosso trabalho de encaminhamento pela Fé Cristã se forem a público estas lendas de demónios? As pessoas realizariam que existem demónios e por conseguinte adorariam com mais fervor Nosso Senhor.
– É precisamente o contrário, rapaz! Precisamos que os demónios sejam como sempre os fizemos ser: criaturas obscuras, invisíveis aos sentidos. Só os seus males e danos são tangíveis. Desta forma a única salvação das pessoas reside em Deus, Nosso Senhor. O que este documento prova, para além de que demónios existem, é que os demónios podem ser derrotados! Não por Intervenção Divina, nem mesmo por nós, homens de Deus, através da Sua Palavra, mas por artifícios terrestres, por humano engenho! As ciências estão a deturpar o amor a Deus e nestes tempos conturbados, em que as vozes das academias são plenamente ouvidas, estamos, mais que nunca, com o trabalho dificultado. Nunca te esqueças, rapaz: A Razão é inimiga da Fé!

nota: Este conto é baseado na carta de Pero Vaz de Caminha.
Trechos inteiros foram usados para manter o espírito original.

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Tália

João é um jovem que nutre admiração pelos humoristas e cronistas da nossa praça, e admira as perspicácias e humor com que relatam os acontecimentos do dia-a-dia. Possui um desejo em tornar-se num desses tipos e colaborar em periódicos, revistas e antologias com as suas observações e pensamentos. Para tal, começou por onde muita gente começa hoje em dia: criou um blog. Poderá experimentar as ferramentas disponíveis nas redes sociais, ganhar um grupo de seguidores e seguir e comentar noutros blogs, afim de expor o seu trabalho e ganhar notoriedade, até finalmente entrar em eventos e círculos frequentados pelos autores que admira.
É esse o plano. Infelizmente não é essa a realidade. Após muitos meses, há ainda poucas entradas no blog – longe do que seria habitual nesse género de blog –, com qualidade variável e nem sempre suficientemente humoroso. Concludente é o baixo, baixinho número de visitas diárias.
João é até um bom escritor, já escreveu vários contos e principiou a escrever um romance, mas chega à infeliz conclusão que não tem jeito para o humor. Sabe, contudo, que a via mais rápida para o reconhecimento é pelo Humor; os autores mais lidos e comentados, os mais publicados, são os humoristas ou com queda para o humor. Até mesmo os cronistas ditos sérios pautam os seus textos com humor, afinal o humor é o maior atestado de inteligência que se possa apresentar, o que muito apraz estes pensadores.
A persistência do João é inegável, mesmo sem sentido de humor ele mantém-se atento ao mundo actual, procura observar por diferentes pontos de vistas variados assuntos. Para ele é um desafio, quer provar a si próprio que é inteligente o suficiente para levar a tarefa ao cabo.
Diz-se que a persistência gera frutos. Assim mesmo acontece-lhe num dia…
– Chatice, não me ocorre nada. – diz ele, folheando um periódico. – Mas como é que esta malta faz? Principalmente os que actualizam o Twitter em cada 15 minutos! Até parece fácil…
Farto de tanto ler, amachuca o jornal, transformando a sua raiva numa bola de papel e chuta-a para uma parede. Senta-se na cadeira e encosta a sua cabeça sobre os seus bruços na secretária. Suspira demoradamente.
– Fogo, tenho tanta vontade de fazer isto mas não consigo. Que neura! Seria capaz de dar tudo para ter este talento!
– Gosto de ouvir essas palavras. – ouve ele, por trás de si. – É esse mesmo o espírito.
João ergue-se sobressaltado, quase derrubando a sua secretária. Apoiando-se com aflição, olha repentinamente para donde vem a voz. No meio do seu quarto, em pleno ar flutua uma presença feminina. Traja um leve vestido branco e brilhante que é embalado por um vento que não se sente. Os seus ombros nus são acariciados pelos ondulantes cabelos morenos e, por trás destes, uma máscara esconde o seu rosto. Uma máscara de jóia branca trabalhada, com as feições de um sorriso maquiavélico e divertido. Ela empunha um bastão ornamentado que lhe confere autoridade.
– Quem és tu? – pergunta João, atento à visão à sua frente.
– Sou a Tália, a Musa da Comédia. Vim em teu auxílio. – diz ela, com uma voz segura e cristalina. Ergue o bastão e aproxima-o da sua máscara. – Reconheces a máscara, de certeza. – afirma ela ao João. Reconhece-a, sim, a máscara cómica que, a par com a máscara trágica, representa a Arte, cultivada pelas Musas que, ao longo dos tempos, inspiraram muitos homens a realizarem obras e feitos memoráveis e os seus nomes ficaram escritos nas páginas da História.
– Vais… ajudar-me nas crónicas? Ser um tipo famoso?
– Isso mesmo.
A Musa aproxima-se do João, num passo gracioso. Retira a máscara por cima da cabeça, deixando o cabelo lustroso dançar pelo pescoço e ombros. Ergue o seu rosto, atrevido e jovial, e João contempla os olhos azuis da pequena, profundamente encantado como inumeráveis homens ficaram na presença da Musa.
– Rapaz, todo o artista precisa de alguém que estimula a sua imaginação, que lhe ocupe a mente, que o incentiva e que o artista lhe possa dedicar o esforço resultante. Quem melhor do que uma das Nove Musas? Que inspirou os mais sagazes satíricos, como o Cyrano de Bergerac, José du Bocage e Jon Stewart?
– Sim, Musa, ficaria muito agradecido por isso!
– Podes tratar-me por Tália.
Ela recolhe as mãos atrás das costas, caminha num vai e vem e, com ar empinado, acrescenta:
– Claro, vou pedir algo em troca. Não é qualquer um que é merecedor da minha inspiração, é preciso que se faça um sacrifício. Só para mostrar que está mesmo disposto, sabes? Todos os meus homens assim fizeram. Continuas, então, a querer “dar tudo”?
– Sim… – concorda ele, já com algum receio, bem que lhe parecia ser demasiado fácil. – Oh, a minha *glup* alma?
– Não é preciso muito. E também não tenho interesse em esperar muitos anos até que morras. Além do mais, é a minha mãe quem lida com o assunto das almas.
João nem repara na ironia professada por um ser imortal, fascinado como está na beleza jovial dela.
– Apenas perdes uma coisa pequena, o teu emprego. Seria prova suficiente. Isso ajudaria-te, pois a virtude do humor é a capacidade de se ser optimista em situações desagradáveis. Como podes ter sentido de humor se vives uma vida despreocupada?
– Faz sentido, mas…
João questiona a ideia proposta, claro que não seria coisa pequena, mas pensa depois, como comediante, no furor que faria em festas, ser convidado!, ter confiança entre miúdas giras, toda a gente a querer ouvir o que ele tem a dizer. E depois com os contratos para a tv, os patrocínios de empresas como a PT e Meo, tudo isso compensaria perder o seu emprego…
João revê mais uma vez o rosto dela, o sorriso expectante. Decide-se.
– Aceito.
A musa desaparece no preciso momento em que o telefone dele toca.
– Olá João, aqui é a assistente do director de Recursos Humanos, lamento dizer que estás despedido. Muito boa tarde!
Tal como combinado, é-lhe dada a oportunidade. João senta-se à frente do computador, pronto para começar a escrever. Recorda do sorriso da Musa, a voz cristalina dela ecoa na sua mente e tudo o resto lhe parece silencioso e cheio de luz. Começaria a encontrar o lado engraçado do ocorrido e a escrever humor. Os dedos descansaram sobre o teclado mas as teclas não seriam mais premidas nesse dia. Os seus olhos humedeceram-se e finalmente larga-se num pranto, enganado como um menino indefeso.
***
No Olimpo, lar dos deuses e demais imortais, a Musa recolhe-se nos aposentos que partilha com as suas irmãs. Procurando fugir das atenções, tenta devolver a máscara cómica no sítio de onde retirara mas a sua irmã apanha-a.
– Melpôneme! – exclama, irada, a Tália. – Devolve-me a minha máscara que eu vi o que tu fizeste, e toma a tua!
– Ai, apanhaste-me. Ficaste chateada? – diz Melpôneme, apertando a máscara trágica no peito.
Tália cobre o seu rosto, envergando a máscara cómica que parece tão assustadora quanto o seu riso é maquiavélico.
– Ah, ah, ah. Claro que não! Adorei o que fizeste ao homem, há algum tempo que não me ria tanto!
Fim
Epílogo
João publica um romance aclamado pela crítica e pelo público e é agraciado com o Prémio Camões.
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Prémio Dardos

Recebi da Ana C. Nunes o Prémio Dardos, o meu obrigado!


“O Prémio Dardos reconhece os valores que cada blogueiro mostra em cada dia no seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais… que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras.”

A aceitação deste reconhecimento implica três regras:

1- Se aceitar, exibir a imagem
2- Linkar o blog do qual recebeu o prémio (Caneta, Papel e Lápis)
3- Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos

é problemático respeitar o ponto 3, já visitei muitos blogs de escritores mas tornei-me visitante assíduo de poucos, destes os que merecem são os seguintes. Entretanto vou actualizando a lista, pode ser?
Caneta, Papel e Lápis
Sara Farinha
rabiscos, rascunhos e limitada
Neuroses da Escrita 2.0
A Hora do Saguim
Alexandra Rolo
The Mad Woman in Attic
Crónicas de Eos
Rui Serra

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