A ilha

O homem tinha medo de espelhos. Não gostava de espelhos.
As pessoas gostam de espelhos pois reflectem a realidade, são verdadeiros. Ele achava-os mentirosos. Evitava-os sempre que podia, nem os tinha em casa. Vira neles a progressão, lenta e incisiva, da transformação que passara a ocorrer no seu rosto. Ao princípio tinham surgido sob olhos algumas escamas soltas, depois umas protuberâncias pelo rosto que ganhariam a forma de tentáculos. Sabia não ser assim, deslizava as mãos pela face e não sentia nada de anormal, mas quando se olhava ao espelho via um ser tentacular.
Procurara ajuda em vários psiquiatras. Todos diziam o mesmo. Era uma ilusão, uma falseada percepção da realidade. Só precisava de confiança, a solução estava nele próprio. O último deles propôs-lhe uma solução experimental, dado o desespero alarmante do seu paciente. Um lugar especial, numa ilha do Pacífico, era reservado para homens como ele. Ali estariam ausentes da sociedade e seria um recomeço: dos seus hábitos, dos seus comportamentos, sobretudo das suas personalidades.
Os homens residiam numa mansão branca, perdida na floresta imensa que cobria a ilha. Chamavam àquela casa “Covil”, nome apropriado para homens como ele; barbudos, despreocupados com a imagem, isolados do mundo, longe de olhares. Os quartos eram parcos em mobília e não tinham espelhos. Sentiu-se igual entre seus.
Frequentemente visitavam as praias da ilha, entre outras actividades lúdicas. Jogavam jogos e desempenhavam diferentes personagens, esqueciam daquelas que os levaram à ilha.
No mar, entre os seus banhos longos, via a sua figura reflectida nas águas. O rosto estava indistinto, confuso, talvez devido aos pequenos turbilhões de ondas, areias e sal, mas a silhueta cada vez mais se aproximava à de um homem. Sentia-se agradado e renovado.
Meses passaram e a todos eram visíveis melhorias nos estados de espírito, na comunicação e solidariedade entre todos.
Viram um golfinho nas águas da ilha. A barbatana dorsal a circular na superfície e a aproximar-se da praia, o corpo a confundir-se numa onda e a dar à costa. Todos ficaram incrédulos com a bizarrice no aspecto do animal que repousava nas areias. Tinha a cauda e a barbatana características dos golfinhos e o ventre branco. Mas a parte superior, tinham a certeza, era tal e qual a de uma mulher humana. Duvidavam do que viam, suspeitaram que seria mais uma ilusão. Aproximaram-se dela, quiseram conversar com ela. Ficaram enamorados. Aos seus olhos, era linda. Uma magnífica criatura. Não respondia aos seus avanços. Por mais palavras afectuosas que a dedicavam ela não dava sinais de gratidão ou de satisfação.
O homem, que antes se vira como um ser tentacular ao espelho, disse a todos que devia estar com ela, que eram iguais sob o signo da água, era o destino. Discordaram de tal facto, todos eram homens barbudos, ninguém era mais parecido com ela do que outros. A discussão subiu de tom, trocaram palavras furiosas, agressões foram acometidas. O homem que se achava igual a ela, quando caiu nas ondas que arrebentavam na praia, depois de uns safanões sofridos, viu nas águas pequenos e rápidos tentáculos. Sentiu-se derrotado.
Dela não sentiam nada senão desprezo.
Meses de recuperação foram varridos naquelas ondas. Ela viveu nas areias por mais umas horas. Não mais regressaram à ilha.
Voltaram a ser e sentir o mesmo de antes de terem estado na ilha mas ele já encarava melhor as coisas, não esperava mais nada. Não que tenha recuperado confiança. Aceitara tudo, simplesmente. Não esperava que enquanto vasculhasse livros antigos e entretivesse a sua curiosidade num alfarrabista no bairro antigo haveria de conhecer aquela mulher. Ela sorriu para ele. Ele haveria até de rodar a cabeça por toda a loja até constatar que não havia ninguém atrás dele. Foi a ele que ela prestava atenção. Foi a primeira vez que alguém lhe sorrira.
Passaram as últimas horas da tarde numa agradável conversa. Admirou o bonito sorriso dela, os seus olhos. Dizem que os olhos são as janelas da alma. De tanto fixar aqueles belos olhos azuis, o homem viu neles o reflexo da sua própria alma. Viu um rosto humano.

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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
Esta entrada foi publicada em Mini-Conto, Sobrenatural com as etiquetas . ligação permanente.

2 respostas a A ilha

  1. Olinda Gil diz:

    Até que ponto a fantasia não é demência?

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  2. ruialex diz:

    É uma boa questão. Acho que quem sofre de demência pode ver contornos irreais e fantásticos das coisas.
    Mas vamos fingir que é um conto do Fantástico, desta vez 😛

    E estou de volta 😀

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olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

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