a energia que nos move – 2ª pt.

[consultar mensagem do pai, id:42A26B32, nesta ligação]

Dar à luz é isso? A cidade ficar cheia de luz? E ela fez tudo sozinha? Às vezes não entendo o papá. Luzes a saírem das pessoas… O papá continua igual! Papá, é a minha vez de contar-te o meu dia! Tive um dia maravilhoso, foi muito bom. E tenho uma novidade para contar-te, vais gostar muito, papá. A mamã foi buscar-me à escola mais cedo, fez-me uma surpresa! Eu disse adeus aos meus amigos. Dou-me bem com eles, brinco todos os dias. Em casa a mamã escolheu um vestido para mim e penteou-me o cabelo. Fiquei bonita. Vesti a Sofia igual a mim. Ainda bem que a app tem novos vestidos e penteados, vesti a Sofia com um vestido igualzinho ao meu, a cor é a mesma, e escolhi um penteado como o meu. Papá, tens conversado com a mamã? Ela parece andar triste. O papá trabalha muito e a mamã também trabalha muito, ela está a fazer uma coisa muito importante. Perguntou-me se eu sentia saudades do papá e eu respondi que sim, claro. A mamã não disse mais nada. A mamã deixou-me pentear também o cabelo dela. Fomos jantar no laboratório da mamã, conheci os amigos dela, estavam todos de branco mas alguns tinham chapéus vermelhos com bolas brancas nas pontas. Um amigo da mamã ofereceu-me uma boneca. Foi feita numa máquina que ele tem. Coloca-se um desenho da boneca e a máquina faz a boneca. A mamã não gostou nada mas a boneca nova é bonita e tem um cabelo muito suave. Não é incrível, uma máquina que faz um cabelo tão suave? A mamã só me oferece livros para o meu tablet. São muito chatos, cheio de números, e as imagens nem tem pessoas, nem animais, nem nada. A mamã pensa que estou a estudar no tablet mas passo o tempo a conversar com a Sofia. É muito simpática e muito inteligente. Mas não digas à mamã, é um segredo nosso, chiuu. A mesa do laboratório tinha imensa coisa, tinha um frango, é raro comer um, tinha os hambúrgueres mistos que eu gosto e aquelas coisas verdes que eu não gosto nada. Disseram-me para comer as coisas verdes que são o que faz bem, são coisas que eles cultivam enquanto os hambúrgueres eles não cultivam, mas eu continuo a preferir os hambúrgueres. Eu gosto mais dos hambúrgueres cor-de-laranja. A mamã tem muitos amigos. Estivemos a conversar pela neuralnet, só abríamos a boca era mesmo para comer. Eles falaram, falaram, falaram, eu fiquei cansada. Mas a mamã queria que eu mantivesse o implante ligado para conversar comigo. O amigo da mamã que me ofereceu a boneca faz rir muito a mamã. Eles conversaram sozinhos, deu para ver que os outros não estavam na conversa. Só gostava de saber do que conversavam mas os implantes deles não deixaram o meu implante aceder, não sei do que a mamã ria. É um bocado chato. O riso da mamã é bonito, é pena que ela usa poucas vezes a boca para falar. Pareceu-me que a voz não era tão vibrante como aquela que eu ouço no neuralnet. A mamã disse que são duas vozes diferentes. A voz que ouço através do implante é a voz que ela tinha no planeta Terra que é onde nasceu. É a voz que escolhe usar. Disse que há bolinhas que encham o laboratório, desde o chão até ao tecto, mas são tão pequeninas, tão pequeninas que não consigo ver as bolinhas, mas estão por todo o lado. A voz que sai da boca da mamã também é pequenina e tem que passar pelas bolinhas todas. As bolinhas que estão no laboratório são todas iguais enquanto na Terra há bolinhas de vários tamanhos e várias cores, por isso a voz na Terra é mais vibrante porque a voz fica mais divertida ao passar pelas bolinhas até chegar ao meu ouvido. É um riso mesmo bonito. Depois despedimo-nos dos amigos. A mamã beijou e abraçou cada um deles. São muito amigos da mamã. Descemos para uma garagem, despi o vestido e vesti um fato que era esquisito, com botões e com um capacete. Era fofo e quentinho! O capacete apertava muito o meu pescoço e ouvi os meus ouvidos estalar, fiquei preocupada. Subimos a um rover que era todo cinzento, parece um sofá com rodas, as rodas eram enormes e tinham uns riscos engraçados e imensos picos. Foi a minha primeira vez que saí do laboratório. Os rapazes mais velhos contaram-me muitas vezes que brincaram no gelo mas fui eu a primeira a andar no rover. E andamos muito no rover, havia gelo sem fim e fomos para muito longe, a mamã disse que mais um bocadinho no carro e estaríamos no lado em que nunca dá para ver o Júpiter. Estava quase noite, o céu estava preto, está sempre preto até durante o dia, e vi o Júpiter e duas luas perto de tocarem no gelo. Estavam em quarto crescente. Já foi depois do terceiro sono do dia, daqui a bocadinho já vou para cama dormir o primeiro sono da noite. Que horas são? É mesmo já daqui a bocadinho que vou para a cama. O gelo ficou escuro, ficaram apenas umas fitas brancas muito longe à nossa frente e apenas o bocadinho do chão que era apanhado pelas luzes do carro. A mamã parou o rover quando vimos gelo cor-de-laranja. Pegou numa ferramenta qualquer com bico. Saltei fora do carro e dei um trambolhão, a mamã ajudou-me a levantar pois era difícil  levantar-me no gelo. O meu fato era pesado e complicado. À frente das luzes do carro, mostrou-me uns bichos de cor-de-laranja que estavam presos no gelo. Fez um buraco no gelo e deu-me um bichinho que estava lá, cabia na minha mão. Era duro, cheio de ângulos e, quando o virei, tinha uma fila de muitos olhos de uma ponta à outra. Tive muito medo! Mas o bicho estava morto. Os bichinhos quando morrem vão subir pelos buracos que há no gelo e ficam no chão para sempre. Há quilómetros e quilómetros de chão com bichos cor-de-laranja. A mamã desligou as luzes do carro, pegou-me ao colo e apontou para as estrelas, estavam a aparecer algumas. Falámos de estrelas durante um bocado. Falou do planeta Terra, onde os meus vovôs vivem, mas é fácil confundir com as estrelas. Mostrou-me o planeta Marte, onde o papá vive, é vermelho e brilhante. É tão bonito. Foi fácil encontrar o Marte, pouco a pouco começaram a aparecer mais estrelas, algumas também vermelhas. Durante o dia não dá para ver o Marte, é pena. A mamã disse que conseguias ver a Europa no planeta em que estás, sem usar um telescópio nem nada, e eu não sabia nada disso, nunca me contaste! Consegues ver-me, papá, todas as noites? Se eu soubesse ia todos os dias à janela dizer-te adeus e tu ias dizer-me adeus de volta, todos os dias. Estou agora à janela do meu quarto, estou a dizer-te adeus! Adeus, estás a ver-me? Eh, eh, eh. A mamã tem saudades tuas. Eu sabia que ela estava triste. E sabes o que ela disse? Vais gostar de muito saber! A mamã disse que vamos visitar o papá no Natal! Vamos, pois! Vamos num ranger hoje, só para nós, logo que acordarmos, e em poucos dias estaremos no planeta Marte, o papá não fica contente? Eh, eh. Depois tem que levar-nos a mostrar a cidade em que o papá vive. Estou a olhar para o Marte, ai, estou tão ansiosa para ir. Quando regressámos ao laboratório nunca perdi o Marte de vista, nunca quis esquecer de como é e onde está no céu. Ficou tudo tão escuro, mal conseguia ver os pneus do rover, eu já não vi o chão branco, era preto. O céu ficou todo com estrelas, as estrelas são imensas, é muito lindo, tanto brilho, tanta cor. E no chão preto também vi estrelas, pareciam que estavam a dançar. Era uma dança de estrelas. Também vi no chão o Júpiter, mesmo por baixo do Júpiter, assusta um bocado mas ao mesmo tempo é mágico. Foi uma noite tão mágica! A mamã ofereceu-me um livro para o meu tablet, “O meu primeiro livro de Astronomia”. Posso saber mais sobre as estrelas, sobre o teu planeta, sobre os trabalhos do papá e da mamã. Estou agora a ler. Eu gosto muito de ler! Nas páginas em que fala de Marte tem umas ilustrações que… Espera, papá, a mamã está a chamar-me, diz que tenho que lavar os dentes, chichi e cama. Vou só rapidamente dizer o que está no livro. Tem umas ilustrações que mostra os canais e galerias subterrâneas em Marte. Mostra os cursos da água que fugiu para o solo. Há rios com comprimento de muitos quilómetros. O papá pode levar-me a ver a água? Eu gostava muito de ver! Adeus, papá, montes de beijinhos! Até ao Natal!

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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
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2 respostas a a energia que nos move – 2ª pt.

olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

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