Naquela horrível noite de bruxas

Eu não o esperava. Nunca soube da sua existência. Não sei como devo agir-me, há tantos anos sem crianças em minha casa; mas ei-lo no tapete da minha sala, aos meus pés. Apenas o observo, permaneço mudo e sentado na minha poltrona. Ele sorri e dá um salto até à poltrona e estica um papel de cartão até mim.
A minha mão treme quando leio o cartão dele. Queria tanto que não me tivesse feito essa pergunta…
– Tens a certeza que queres saber?
Ele rabisca num novo cartão. O lápis desliza no papel em movimentos lentos, próprio de quem anda a aprender a escrever. Pego no cartão.
“Sim. Quero saber porque és assim, avô.”
Olho para aqueles grandes olhos, irrequietos de curiosidade. A minha história não é muito diferente de outras histórias de terror, certamente ele já ouviu várias na sua tenra idade. Não preciso de preocupar-me, talvez seja melhor para ele eu contar-lhe, ele fez uma grande viagem e consigo entender que tenha vindo pela minha história. Pelo menos para mim será melhor contar-lhe.
– Muito bem. Eu conto-te, mas prepara-te pois não é muito agradável.
O meu neto senta-se aos meus pés e apoia a cabeça nos punhos.
– Aconteceu há muitos anos, vivia eu numa aldeia protegida pelos montes do Minho. Conheciam-me como uma pessoa pacata e sempre fiz para que me deixassem em paz. A tua avó já tinha morrido, Deus guarde a sua bondosa alma. Vivia com o teu pai e a vida pode-se dizer que era boa, apesar de tudo. Mas foi num ápice que a vida perdeu o sentido que eu lhe conhecia. Tudo mudou naquela horrível noite de bruxas.
No meu tempo, havia um grande temor nas noites das bruxas. Acreditávamos que elas vagueassem pelas aldeias e fizessem muito mal à gente. Que um poder demoníaco governasse as suas vontades. Então ficávamos isolados em casa, com muito medo.
Naquela noite não esperava que me fossem bater à porta e muito menos que eu a fosse abrir. Não é que tivesse medo, apenas um imenso respeito. Em todas as terras há algo de maligno, acredite quem quiser.
Bateram de novo à porta. Hesitava em ver quem era. Ninguém na aldeia ousava sair nessa noite do ano e as crianças eram proibidas de o fazer. Todos os anos, quando a temida noite se aproximava, sussurrávamos e repetíamos uns aos outros que seria perigoso andar na rua, contudo as crianças saíam das suas casas, temerárias, encontrando forma de escapulir do medo dos pais. Juntavam-se em grupos, divertiam-se e exibiam os seus fatos que eles próprios criavam, sem que as famílias soubessem, e vagueavam pelas ruas fingindo serem bruxas e demónios, batendo nas portas de casas e assustando os medrosos. Também deves fazer isso na tua terra, espero eu, mascarares de demónio. Às crianças esperava sempre um tabefe ao regressarem aos lares, mas no fundo os pais sentiam uma ponta de orgulho por as crianças não partilharem do seu medo imbecil; elas faziam-lhes lembrar como foram em meninice. Rezavam para que quando crescessem não se tornassem na gente medrosa daquela aldeia perdida nos fundos de altos montes.
Bateram de novo à porta. Não tinha intenções de saber quem era, somente queria que fosse embora, aquela não era noite para ter a porta aberta, as pessoas sabiam isso muito bem, só podia esperar que fossem crianças a quererem meter medo e que fartassem rapidamente da brincadeira pois não estava para me incomodar.
Bateram à porta novamente, vigorosamente. Com um pequeno assomo de coragem, e alguma raiva, aproximei-me da janelinha da entrada, curvando-me a um canto da janela. Lá fora havia uma luz, uma chuva miudinha. Era difícil perceber aquela figura que segurava alto uma lanterna e vestia-se de negro, uma longa gabardina para se resguardar da chuva. Pude ver atrás dele, iluminada pela sua luz, uma carroça no calçado da rua, puxada por um cavalo grande e negro. A carroça era de caixa aberta mas parecia bonita e para além das posses das pessoas humildes da aldeia. Estava lá um grande embrulho, de lençol branco, presa com uma corda grossa.
Sem mal me reagir, a luz desceu até à janela, e encarei o rosto do homem de negro. Fitava-me com olhos bem abertos. A boca, triste, balbuciava coisas inaudíveis.
Bateu à porta. Contra todas as minhas expectativas, e para meu maior infortúnio, eu abri a porta nessa noite.
– Sim? – eu disse a medo. Ele parecia que escrutinava o meu físico. Manteve a sua lanterna alta apesar de eu ter ligado a luz da minha casa.
– Você é o coveiro, estou certo?
Não o deixei entrar, nem fazia tenção de o convidar, nem mesmo no seu estado: nariz a gotejar, a franja molhada que penteou para trás, a sua voz que parecia toldada pela água.
– Sim, sou eu. – acabei por dizer. Não estava de passagem, percebi, e só quis despachá-lo. – Você não sabe que noite é esta? – perguntei-lhe. – É a noite das bruxas, não pode ficar por aqui a rondar… Fique em casa, homem!
– Meu caro, posso dizer-lhe que não tenho por hábito deixar-me melindrar por tais assuntos, não sou alguém que aja pelas canduras da superstição… – ele ficou a contemplar o chão. – Todavia, – disse, encarando-me então. – não posso negar certos fenómenos dessa natureza e devo confessar que esta noite potencia essa impressão.
Apoiou a mão na minha porta.
– Mas o que você quer? – perguntei. Eu não deixava mais que uma escassa abertura da porta.
– Ouça, tenho um assunto premente em mãos.
Afastou-se para o lado e apontou a sua lanterna para a carroça na rua.
– É lamentável a situação. Ora ela fazia-nos rir, ora portou-se de uma maneira esquisita. Não tivemos remédio… Mas adiante, não é necessário delongar o momento. Vim em representação do meu senhor, para lidar com esta situação consigo. Os seus serviços são precisos. Tenho um corpo para enterrar.
– Enterra-se amanhã!
– Seria preferível tratar do assunto com a maior brevidade possível. O meu senhor ficaria muito aliviado e amanhã não ficaria preocupado ao passar o dia com os convivas e familiares na ronda dos cemitérios.
– Olha, ele tem um cemitério onde vai ser enterrado, não é? Enterra-a ali.
– Mas precisamente. Ele pretende encerrar o assunto com a maior distância que lhe for possível, está a ver, meu caro? O meu senhor entende perfeitamente que possa ser uma situação inaudita e é evidente que irá compensar por todos os inconvenientes que isto acarreta. Permita-me.
Pousou a lanterna aos seus pés. Desabotoou a parte de cima da gabardina e remexeu nalgum bolso no interior.
– Estende as mãos, por favor. Faça-me isso. Junta-as em concha.
Assim fiz. Depositou nelas, com um pesado tilintar, um saco de linho branco. Desapertou o nó que fechava o saco e já em mim crescia a expectativa. Nem acreditava. Foi a primeira vez que vi a cor do ouro.
– Meu caro, isso é mais do que você ganha em alguns anos. Está convencido agora a que ponto desejamos o enterro da moça? Posso contar com você?
Em qualquer outra altura, em quaisquer outras circunstâncias, e teria aceitado de imediato. Era um serviço irrecusável mas hesitei. A surpresa daquele pedido só me fez recear por algo pior, dado o espírito com que me encontrava nessa noite, como sempre foi.
Ele pegou na lanterna e deu um jeito à gola para melhor se resguardar da chuva. Senti que ia esticar a mão para pegar no saco, por isso abarquei-o no meu peito e quase gritei.
– Eu faço! Eu faço…
Nesse momento arrependi-me dessa loucura. Na igreja da aldeia, como se a própria noite maldita risse de mim, os sinos repicaram. Quase deixava cair o saco do susto. Olhei para o relógio de parede: era o toque das onze e quarenta e cinco. Apenas quinze minutos para a hora fatídica.
– Vamos, então? – perguntou, como se percebesse a minha hesitação.
Eu duvidava que conseguisse enterrar um corpo e regressar à casa antes da meia-noite. A hora em que as portas do inferno são abertas, diziam. Eu não tinha medo, tinha imenso respeito.
Instintivamente olhei para trás, para a porta do quarto do meu filho, o teu pai. Dormia nessa noite. Oh, o teu pai era tão lindo, era tão alegre. Eu faria tudo por ele.
– Vamos. – respondi-lhe por fim.
É estranho como uma pessoa é capaz de enfrentar tudo, até o próprio medo, por dinheiro. Não, acho que é mais assim: uma pessoa é capaz de sacrificar a sua pele por alguém que ama, mas não acho isso estranho, principalmente quando é alguém que depende dessa pessoa.
Apertei o cinto da minha gabardina que vestira. O homem colocou a lanterna na carroça, ao lado do corpo. Além do tecido branco que cobria o corpo, uma corda grossa o apertava com variados nós, o que me deixou de atalaia. É costume nós, coveiros, recebermos os corpos em mortalhas, muitas das vezes nem chegamos a ver os rostos, mas cordas apertadas tinha sido a primeira vez que vi. E não deixei de reparar que o corpo fora atirado para o canto mais longe do assento do condutor.
– Quem era? – perguntei-lhe.
– A nossa cozinheira. A mais nova.
– O que lhe aconteceu?
– Uma tragédia. Na verdade não sei explicar como chegamos a este ponto.
– Conta-me, homem. – insisti. Ele foi quem me trouxe ali. Eu começava a achar aquilo suspeito e que era com ele que devia ter o cuidado.
Por um momento não soube dizer nada, a boca abria e abria. Apertou-me as mãos, com gentileza. Por fim, disse:
– Meu caro, penso que lhe posso contar os acontecimentos desta noite que assisti em pessoa. Estou seguro que você guarda silêncio, principalmente após o dote que agora possui. Recebemos esta moça na nossa casa na semana passada, foi para tomar um dos cargos livres de cozinheira. Era boa moça, profissional e afável. Hoje, por motivos que me ultrapassem, ela tomou certas iniciativas junto do meu senhor. Quando cheguei ao salão, e a tempo de ver o meu senhor disparar a arma sobre ela, ouvi ela dizer “Meu príncipe do meu coração”.
– Meu príncipe do meu coração… – repeti.
– Ela tinha um olhar de tresloucada. Estava irreconhecível. O meu senhor disse que não teve remédio. Era ela ou ele. Asseguro-lhe, se há palavra indubitável, é a do meu senhor.
Ele colocou as mãos no embrulho branco e eu imitei-o. Levantámo-lo e colocámo-lo num carrinho de mão que eu deixara na rua. O tecido estava empapado e colava-se ao corpo.
– Obrigado, meu caro. – disse-me com algum entusiasmo. – Desejo-lhe todo o cuidado. Acredite no que lhe digo, conselho de amigo. Trata de enterrar o corpo sem cerimónia, o mais rápido possível. É um corpo maldito. Ignora tudo o que possa acontecer à sua volta, por muito terrorífico que lhe soa. Com celeridade você consegue. Coragem.
Eu disse-lhe que iria tratar do enterro o mais rápido que me fosse possível. Eu queria estar em casa, ver se o meu filho não escapulia de casa como os restantes putos costumam fazer.
– Lamento em saber. – disse ele. E eu interpretei-o mal.
– Ah, não. Eu adoro o meu filho. Ele é a minha felicidade.
Deixou cair pendente o queixo. Achei que ia dizer qualquer coisa mas acabou por desviar os olhos dos meus. Subiu à carroça e nem olhou para trás quando se foi embora.
Não percebera o que ele quis dizer mas sei hoje, o maldito. Gostava muito do teu pai, mesmo muito. Ele era para mim a vida toda, quero que saibas disso.
O meu neto continua a devotar toda a atenção em mim. Não estou a ver se fica aliviado ou não em saber. Mas receio que venha a sentir-se mal. Agora é que vai ser a parte mais estranha desta história.
Arrumei a pá que estava no carrinho de madeira para um canto, empurrei o corpo para o centro do carrinho, os pés e a cabeça ficaram por fora da caixa, certifiquei-me que nenhuma dobra do tecido pudesse ficar presa em nenhuma das quatro rodas, puxei o carrinho pela comprida pega e segui de imediato para o cemitério; ficava a alguns passos da minha casa. Antes de entrar no cemitério, pareceu-me ter ouvido qualquer coisa atrás de mim. Na estrada não havia sinais de que o condutor tivesse regressado, por isso não fiz caso do ruído. Reparei que não tinha levado uma lanterna comigo quando fui abrir a porta do cemitério. Ainda pensei em regressar para buscar uma mas achei que o luar dessa noite era o suficiente. Não podia demorar-me no que tinha a fazer. Atravessei o caminho largo que levava à encruzilhada que fica no centro. A chuva ainda caía levemente e os meus pés escorregavam nas lamas quando não tinha muito cuidado. Olhava para trás para ver se o corpo não caía do carrinho. Passei pelos corredores entre as campas de mármore e granito até chegar ao pequeno arvoredo que aprimorava uma miserável esquina do cemitério. Lá a terra era mais mole, seria onde largaria o corpo.
Caminhava por entre as campas; nisto soou um ruído. De início não dei importância, pareceu-me de ramos de árvores agitados pelo vento e chuva. Mas depois começou a estalar. Como se o ramo fosse pisado por alguém. Olhei em volta e nada vi senão mármore e granito. No solo haviam apenas os meus rastos e os do carrinho. Ignorei o som mas quando retomei a passada voltei a ouvir o ruído. E berrei:
– Vai-te embora! Olha que conto ao teu pai!
Tinha pensado que era uma criança. Todos os anos atreviam-se a percorrer o cemitério na noite de bruxas. Nunca apanhei uma, mas fosse eu um homem afamado por uma violência que não possuía e era vê-las a não mais se atreverem. Puxei o carrinho de mão e, novamente, o maldito ruído! Aligeirei o meu passo; quis ignorar que fosse comigo, quis mostrar-me valente, que não sentia-me afectado. O barulho não cessava. Ouvia os sons rastejar nas minhas costas. Dei um passo: ramos que agitavam uns aos outros; dei dois passos: galhos rebolavam aos meus pés. Sem revelar a minha intenção, espreitei acima do ombro. Mais uma vez não via movimentos nem nada que justificasse aquilo. Dei uma mirada ao corpo, permanecia equilibrado no carrinho; ao seu lado estava a pá, seria fácil pegar e manusear a pá caso fosse preciso. Tentei ficar calmo. Sem ceder ao pânico e sem movimentos apressados; é difícil manobrar o carrinho num solo escorregadio como estava nessa noite. Os barulhos soavam alto, eu prosseguia a minha caminhada. Parecia que não mais alcançava aquele pedaço de terra que nunca era perturbado por alguém, seja vivo ou morto; a escolha mais propícia. Alguns passos: arbustos arrancados do solo. Outros passos: folhas secas ripadas. Fechei os olhos, deixei que os meus passos me guiassem. Estava rodeado de um caos amontoado de galhos, ramos, troncos. Enfileiravam paredes vivas de madeira, um cerco que estreitava mais e mais o caminho. Senti-me fechado num caixão. Rangiam na minha pele. Rachavam, estilhaçavam. Os mortos agitavam os caixões, era uma tempestade. Choviam caixões, estalavam ao bater na pedra dos jazigos e lápides. Madeiras que se quebraram na minha nuca. Recolhi os ombros e escorreguei-me todo pela lama. Não havia ali ninguém. No solo e nos meus pés nada havia senão terra e relva. Desvairava-me que ouvisse estalos em cada passada e depois o ruído cessasse quando eu ficava imóvel. Por fim, dei-me conta: tive a sensação que aquele tumulto provinha do carrinho. Não tinha dado logo conta porque não sentia vibrações que propagassem do carrinho para a minha mão. Mas convenci-me que, fosse lá como fizesse, era a morta que o fazia.
Estiquei os dedos e toquei ao de leve no tecido molhado da mortalha. Fiz pressão e retirei a mão imediatamente. O corpo permaneceu imóvel nas tábuas do carrinho. Como se a quisesse acordar, com ambas as mãos abanei-a. O meu temor confirmou-se. Nos centímetros em que a desloquei sobre as tábuas do carrinho, roncou tudo à minha volta. Causou-me até uma tontura, tive que segurar-me ao carrinho. Eram umas tábuas rijas, de duro carvalho. O som misterioso era de madeiras apodrecidas. Espetei a pá no solo. Onde eu estava era um bom local; decidi iniciar o enterro. Agarrei uma boa porção do tecido junto aos ombros do cadáver, fiz força para o levantar e o retirar do carrinho, mas escorregou-me das mãos, caiu na lama. Foi doloroso, levei as mãos aos ouvidos mas de nada serviu; caí por terra. O meu coração ficou pequeno. Faltou-me o ar. Parecia que me estavam a apertar o pescoço, que imobilizassem os meus pulmões. Prostrei-me na lama, fiquei de gatas a recuperar o fôlego, a controlar as lágrimas que sentia fugirem. Fui idiota em ter aceitado o trabalho. Devia ter atirado as moedas à cara daquele homem, mandá-lo às favas, que fosse ele a fazer o trabalho. Era fácil, era queimar, atirar para uma vala, devia ter percebido no que me estava meter naquela noite.
Decidi-me a ver o rosto dela. Perdi demasiado tempo a tentar desatar um nó e depois um outro. Eram nós bem apertados. Encontrei uma dobra no tecido que, sendo puxada, me permitiria espreitar. Puxei e alarguei a folga, destapei o rosto. A pele era pálida, luzidia ao luar. Desviei as madeixas molhadas dos olhos cerrados. Afaguei os lábios cinzentos com o polegar. Era tão nova, ali deitada parecia pura. Não parecia alguém que pudesse deixar a mim amedrontado, a uns homens a um ponto tal de a matar. Homens que provavelmente não tiveram escrúpulos em profanar o corpo da rapariga. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Não esperava ouvir a voz, a respiração. Estava morta, eu sabia bem. Mas esperava descortinar a origem daqueles barulhos. Esperava uma pista de um qualquer engenho que detectasse os meus passos e que tenha sido colocado dentro dela. Uma operação cirúrgica que certamente teria deixado feridas e hematomas. Puxei a dobra do tecido com mais força, expus o busto e veria com os meus olhos uma qualquer prova do atrevimento dos homens.
Os sinos da igreja da aldeia repicaram. Para meu terror constatei-me que era meia-noite. Estava fora de casa, sozinho e com um corpo, e barulhos que me perseguiam e me tornavam insano. Pedi a Deus que me ajudasse. Joelhos no chão, dedos entrelaçados, implorava e implorava, pedi que me tirasse dali, pedi desculpa, desculpa por ter desafiado as forças do diabo. Que ofereceria o ouro aos pobres se conseguisse sair dali vivo. Por um momento fiquei na reza e a pensar no que faria. Temi que ao levantar o corpo do chão ouviria um barulho infernal. Com alguma vergonha, penso que nesse momento tinha chorado um pouco. Prendi com delicadeza o tecido da mortalha junto ao pescoço dela. Deixar tudo como estava, o melhor que fosse possível, apesar da lama, da chuva. Fechei os olhos, preparei-me para o barulho mais estrondoso que eu viesse a ouvir na minha vida inteira. Desfaleceria se me fosse fulminante, um ressono furioso, mas avancei. Inspirei fundo. Peguei no lençol. Levantei-a.
Silêncio.
Não ouvia nada. Nem um pio, um sussurrar do vento, o afagar da chuva nas poças de água. Deixei cair o corpo e afastei-me de uma forma trôpega, atarantado por ver os meus pés chapinarem nas poças de água e os ouvidos nada captar. Desequilibrei-me. Foi como se estivesse a flutuar para o céu nocturno. A dor palpitou pela minha cara, tinha estatelado na terra. Levantei-me com dificuldade. Nunca encontrava equilíbrio. Deitado no chão, via em redor as árvores a dançarem com o vento, uma música que não escutava. A chuva perturbava as poças de lama mas eu nada ouvia.
Um murmúrio, uma voz a chamar-me. Olhei ao redor. Senti que era a voz da rapariga morta mas não sei dizer porquê. Caí de joelhos e aproximei meu ouvido dos lábios da morta. Claro que eu já não raciocinava. Talvez esperasse que voltar a ouvir fosse o mesmo que voltar a sentir-me são. E ouvi. A voz disse:
– Olha para cima.
Apertei os ombros da morta com mais força e não me atrevi nesse momento a desviar o meu olhar daquele rosto sereno e fazer o que a voz me tinha pedido. Com tudo que aconteceu nessa noite eu receava o pior, nunca tive tanto medo como nesse momento, meu Deus, receava que olhar para cima fosse a minha morte. Que fosse a Morte que tivesse aparecido e que fossem aquelas palavras as que um homem ouviria na sua presença.
Ergui finalmente o meu rosto. Pairava uma figura sobre mim. Não possuía qualquer traje, apenas uma leve luz a cobria. Não senti medo, tomei-a como um anjo. Reconheci a figura como sendo a rapariga morta, era igualzinha a ela, e permaneci ajoelhado perante ela, aturdido pela sua nudez, posso dizer agora que penso nisso. Quando cresceres, vais perceber porquê numa dada altura. Quando ela sorriu, e soltou um risinho, cristalino naquele silêncio, mas diabólico até como se espalhou pelo seu rosto, foi quando comecei novamente a entrar em pânico. Não consegui fugir, só escorregava na lama sempre que fazia um movimento desesperado, mas ninguém teria a cabeça para pensar direito numa situação destas, só queria sair dali mas não fui capaz de mais do que alguns metros. A figura continuou a rir, até que mirou o corpo envolto na mortalha. Ficou triste ao reconhecer-se a si própria, julgo eu, fez uma careta, mas quando voltou a olhar para mim ficou feliz, tão radiante. A risada arrepiou a minha nuca. Era a mim que queria. Não fugi. Não vi nada do que haveria de fazer.
Vivia numa aldeia de gente parva que acreditava em toda a coisa mais imbecil, mas dou toda a razão a essa gente, durante todo o tempo eles tinham razão sobre a noite de bruxas. Os espíritos, os fantasmas, bruxas e não sei que mais, eles existem, sim. Eles existem, meu rapaz. Eu estava a ser perseguido por um. Repetia sempre “meu príncipe do meu coração”.
– Meu príncipe do meu coração, estamos enfim juntos. Resultou o meu feitiço, estamos juntos e estou tão feliz. Oh, e tu és muito giro. Meu príncipe do meu coração. – repetia o espírito e isso já estava a fazer-me enervar, não bastava estar borrado de medo, tinha também de aturar suspiros de amor além-morte, o que era demais numa noite para um homem medroso.
– Afasta-se!
– Ora, tonto! – risada. – Como queres que me afaste? Lancei um feitiço. E resultou, não vês? Esta noite qualquer feitiço é poderoso, qualquer um, e foi agora mesmo que se concretizou. Contigo! – risada.
Fiquei prostrado na lama, a recuperar o fôlego. O meu corpo encharcado tremia.
– Queria ficar com um homem rico quando soasse a meia-noite. Mas deixa-me mais feliz que a esta hora sejas tu quem está comigo. És muito giro, ah, ah. Vigoroso!
Rastejei aonde deixara o carrinho, os meus punhos escorregavam na terra, estava a perder forças no lamaçal. Agarrei a pá contra mim como a uma tábua de salvação. Havia um corpo a meros centímetros de mim mas os meus olhos duvidavam então do que viam.
– Mas tu estás… morta?
– Não vejo como isso possa ser um impedimento à nossa união. O meu feitiço foi projectado a espíritos, não aos nossos corpos. É lamentável que tenha perdido o meu, não devia ter antecipado o meu desejo antes da hora, o mal está feito, mas o amor que existe entre nós não será menos forte por isso. Será eterno, tal como são as nossas almas. Nunca terias uma oportunidade como esta. Mas a tua sorte é que a representação astral do meu ser também é bonita, não é?
Deu um rodopio. Uma risada. Eu estava de pé, munido da pá; caminhava até ela, pé ante pé, e quando ficou ao meu alcance espetei a pá contra ela, mas apenas cortei ar. Surgiu ao meu lado. Girei a pá muito rápido mas não a atingi. Vi-a pelo canto do olho: girei novamente mas falhei. Ouvi-a atrás de mim:
– Não tenhas medo, tu até vais gostar. Olha para mim: sou linda! Mas qual é o teu problema?!
Rodei a pá. Rapidamente rodei para o lado contrário. Rodava feito tolo. Ela desaparecia quando a pá lhe atravessasse mas nem por isso parei de brandir a pá. Era a única arma que tinha, mesmo que fosse inútil. O único efeito que surtia era que ela ficava mais e mais triste; isso motivava-me a continuar. Vi-a estendida no chão. Girei a pá. Mesmo antes de executar o movimento eu soube que a ia atingir em cheio. O mundo turbilhonou nos meus ouvidos. Uma cacofonia indistinta, paralisante. Aos poucos recuperei o mundo natural: a brisa soprava, a chuva tamborilava nas poças de lama, a bruxa falava em lado nenhum. Tinha desaparecido, para meu imenso alívio. Circulei pela área, nenhum sinal dela. Debrucei-me sobre o cadáver. Dei um jeito à mortalha e cobri a cabeça dela. Ficou desfeito o rosto que antes achara tão sereno.
Por um momento pareceu-me que era a melhor oportunidade de fugir mas não podia deixá-la ali. Logo de manhãzinha a gente da aldeia visitaria em peso o cemitério. Teria que lidar com a fúria da população. Perguntas sobre o cadáver tinham que ser respondidas; se os ânimos permitirem sequer a ocasião. E também não podia arriscar que ela voltasse a assombrar alguém. Eu tinha que enterrar o assunto. Nunca mais poderia ser vista.
Foi quando a vala já tinha três palmos de profundidade que dei-me conta que os sons começaram a abandonar o cemitério. A terra sob a pá a reprimir os queixumes. O assobio do vento a despedir-se de mim. Fiquei distante das coisas. Mergulhado no silêncio.
A voz parecia cansada.
– Não gosto de violência, não gosto nada de homens violentos. Se vais estar comigo tens que refrear esses modos. E também deves pensar em ser um pouco charmoso, não te custa nada. Ao longo do tempo vamos limar os teus defeitos, não te preocupes. – um risinho, uma expressão de contentamento.
Disse que queria um homem bom. Que devotaria a mim a sua existência mas percebi que queria tudo à sua maneira, apenas um boneco nas suas mãos a quem chamar de seu príncipe. Eu já tive um amor, um grande amor que me foi tirado muito cedo. A juntar-me a alguém numa eternidade após a morte seria com o meu e único amor. Oh, desejava que, quando um dia morrer, as nossas almas se encontrassem e ficassem juntas, mas sei bem que isso não vai acontecer. Magoa-me mais agora que sei que a morte é, e sempre foi, na verdade, o início. E queria ela que ficássemos juntos só porque fez um feitiço que fizesse tal acontecer, a maldita bruxa. Não mais tive medo. Se era a ira que a mantinha afastada, então eu entregava toda a que estivesse em mim. Crispei as mãos no cabo da pá. Ergui-a alto e avancei um passo; uma martelada no cadáver com a pá.
Que bom era ouvir o meu riso. Comecei a rir cada vez alto, decidi até rir mais alto do que ela, ela não me ganharia em coisa nenhuma. Bati-lhe e bati-lhe. Manuseei a pá como se fosse uma lâmina. Destralhei-a toda, o sangue seco não correu. Foi pena, teria sido um prazer ver misturar-se com a terra e ser absorvido pelo tecido da mortalha.
Perdi o sorriso quando um leve ruído me fez olhar para trás. O meu coração tinha saltado, mas quem eu discerni no escuro não era quem esperava que fosse. Uma miúda mascarada estava entre duas lápides. Tinha uma máscara vermelha, um careto. Deve ter sido atraída pelo meu riso. Estava estática, e percebi em que ela pensava nesse momento: um coveiro que se diverte a destruir cadáveres à noite.
Ela fugiu e fui no encalço dela. Se tivesse acontecido numa outra noite de bruxas, se tivesse sido uma outra noite qualquer, talvez eu teria agido de maneira diferente. Teria enfrentado a população da aldeia, teria dito que o lugar da menina não era o cemitério e que eu tinha feito o meu trabalho ao expulsar crianças a vandalizar, as crianças é que costumam estragar e mentir, não devemos fazer caso do que as crianças dizem. Eu estava alterado após o que tinha acontecido nessa noite, não estava a raciocinar quando fui perseguir a miúda. Corri pelos corredores lamacentos, esperava apanhar a moça na saída do cemitério, ela correu em cima das campas, era pequena mas desembaraçava-se bem nos saltos sobre as lápides e nos passos entre as folgas das lajes. Já imaginava toda a espécie de castigo que a aldeia decidisse a aplicar-me. Era gente que praticava uma justiça célere, secular. Nada de tribunais, isso é coisa demorada e com honorários. A miúda não podia escapar de mim. Um dos costumes que preservaram era o recurso ao tronco da praça da igreja, um castigo que todos estavam habilitados a participar, que pudessem afinar a pontaria ou o que quer que quisessem fazer comigo, e já seria a minha melhor sorte. Não podia ser apanhado. Nem o pouco luar nem os jazigos a barrar-lhe a corrida enfraqueceram a sua determinação e foi num momento de sangue-frio que segui por uma ladeira que me atalhasse o caminho e pude capturá-la mesmo antes da saída.
Tirei-lhe a máscara vermelha. Tinha um rosto severo.
– Vou contar aos meus pais. – disse ela. Diabo, era inteligente e devo dizer que mais corajosa do que eu. Quando vi o saco de frutos que segurava, para o Pão-por-Deus que se faz de manhãzinha, ocorreu-me convencer a miúda com imensos frutos secos, chocolates e bolos por muitos dias caso ela portasse como uma menina boazinha. Teimava ameaçar que ia contar ao seus pais e eu insistia que portasse bem, dava-lhe todos os chocolates do mundo. Recusava e eu ouvia a sua voz mais baixinha, ouvia também a minha voz a sumir-se, deixei de ouvir o vento e chuva, não ouvia o cemitério, e os lábios dela a moverem-se e abrirem cada vez mais. Levantei a mão bem alto, eu não reflectia de todo…
Observo o meu neto de pés cruzados no tapete, os pequenos olhos e boca escancarados em mim. Vejo o meu braço erguido, a ilustrar o que tinha feito naquela noite.
Acabo a história, recolho o braço ao meu cadeirão. Já lhe disse tudo, contei até demasiado.
– Foi assim, meu rapaz, que aconteceu. Que fiquei surdo. Depois levei com as consequências por ter batido na coitada da miúda. Mas fiz bem pior depois, cheguei a ser implacável. Supus que quanto mais terrível fosse, quanto mais eu batesse e destruísse, mais hipóteses tinha de a fazer desaparecer, e definitivamente. Durante anos, meu Deus, nem me reconhecia com tanta crueldade. Foi há muito tempo. Arrependo-me de tudo o que fiz…
Sorrio para o meu neto.
– Percebeste tudo? Não falava há tanto tempo, nem sei se falei com clareza, espero que ainda tenha voz para perceber, tu percebeste? – Ele acena a cabeça e devolve o sorriso duma forma traquinas. Pega num novo cartão e rabisca novamente. Entrega-me o cartão e leio.
“Avô, se quiseres podes bater-me. Gostava que o avô ouvisse outra vez.”
– Ah, não, isso não! – dou um berro, para mim inaudível. – Nunca te faria mal, não me peças isso!
O meu neto olha para trás. Abre os seus braços e é levantado do chão pelo seu pai que lhe dá um forte abraço. O meu neto e o meu filho. O meu neto afaga o rosto do meu filho. Acaricia as cicatrizes e deformações daquele rosto, e sorri. Eu choro. O meu neto tem um sorriso lindo. Não sei como eles podem perdoar-me quando eu não me perdoo. Nunca. Foram procurar-me, mesmo depois de ter abandonado há imensos anos o meu filho. Cresceu longe de mim. Tornou-se em alguém que nunca quis ser igual ao seu pai. Atrás daquela muralha cicatrizada cresceu um coração bondoso. Fico aliviado por não ter permanecido escondido; alguém encontrou-o e não se deixou intimidar com a muralha.
Ao colo do seu pai, o meu neto escreve num novo cartão.
“Gosto de si, avô”.
Abraçamo-nos e despedimo-nos. O meu filho permite que eu também afague as cicatrizes. O meu neto dá-me um beijinho repicado. Estou feliz por terem-me visitado hoje. Foi uma vida longa em que vivi afastado de um mundo mudo, que falava comigo apenas pelas legendas dos filmes da televisão. Deito fora todos excepto este último cartão, guardo-o no bolso da camisa.
– Oh, dá-me também a mim um beijinho, meu príncipe do meu coração.
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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
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2 respostas a Naquela horrível noite de bruxas

  1. Olinda Gil diz:

    Ah tu e as mortas vivas

    Gostar

olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

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