A energia que nos move

Não a consegues ver, minha criança, mas ela está por toda a parte.
Só porque não criamos instrumentos capazes de a medir, de a pesar e de a replicar, isso não significa que não exista a Energia. Tudo o que vês e tocas é uma ínfima parte do Universo. A monumental restante parte é invisível. Mas é ela o combustível que tudo faz funcionar: move galáxias, transporta Luz e aquece o Universo. E nunca pára de crescer e renovar-se. Acreditamos nisso pois é a explicação que encontramos no comportamento do cosmo, em tudo e em cada coisa. É a única capaz de vergar o gravitelectromagnetismo que é a força de tudo. Ela cresce, imparável, manipula a luz, e infiltra-se nos recantos mais misteriosos do Universo. Está ao nosso redor. A energia está à nossa frente e está dentro de nós. É a centelha que anima os nossos corpos e estimula as nossas mentes. Sem ela seríamos apenas barro, pedra e água. Dentro de ti reside um mundo. É o mesmo dentro de mim. Partilhamos um mundo e é aí que vive a energia: nós somos a energia. Se fecharmos os olhos com força descobrimos estar em contacto uns com os outros, com todas as criaturas e com todo o Universo.
Falo de Amor. Ainda és nova para compreender mas o Amor faz aproximar duas pessoas. Aconteceu comigo e com a tua mãe, aconteceu com os teus tios; também há-de acontecer contigo. Sentimos algo em nós, no nosso âmago, quando conhecemos alguém. Dizem que as nossas energias se cruzam e reagem entre si e se tornam una. Ou então que elas se tornam irregulares e isso provoca excitação em nós. Não vemos acontecer, mas sentimos. Sentimos uma atracção. Não de corpos mas de almas. Elas unem-se e regenerem-se e novas energias são criadas, é esse o propósito. Novos nascimentos em todo o universo. Nova Vida. E depois, quando morremos, os nossos corpos desfazem-se e são absorvidos por toda a matéria, tudo é transformado; mas a energia é restituída inteira ao mundo invísivel, eternamente.
É como aquela história dos Anjos. Há uma interpretação intrínseca e pessoal das interacções entre energias, as deste mundo e as do que existe em nós, por isso as pessoas muitas vezes as encaram como anjos. As pessoas ao seu redor não vêem os anjos; apenas aquela que os escuta. É uma ideia bonita.
As energias em nós comunicam mais ou menos como estamos nós a comunicar pelo neuralnet, com os implantes nos nossos cérebros. Eu no planeta Marte, tu numa lua de Júpiter. Pensamentos a percorrer as distâncias espaciais. Indiferentes ao frio, ao vazio e aos ouvidos. Mesmo desafiando os limites da ordem das coisas, os meus pensamentos atravessam o vácuo bastante rápido mas tardam em alcançar-te. Precisas de alguns minutos para ouvires-me, tal como eu também vou precisar de algum tempo para me responderes e para eu te ouvir. Mas com as energias isso não aconteceria. Tomara nós saber medir as energias e tivéssemos nós tecnologia que as moldasse a nosso proveito, as conversas seriam instantâneas, mesmo que estivéssemos em extremos opostos do Universo. Como se estivéssemos lado a lado, imaginas isso? Oh, quem me dera poder neste momento estar a ler as tuas reacções. Espero que depois, quando responderes-me, envias também as tuas memórias de enquanto me ouvias. Será que achaste tudo divertido em saber, ou será que achaste-me aborrecido? Se calhar ainda não tens idade para entender esta invulgar natureza do Universo. Não faz mal, ainda tens a vida pela frente. Eu próprio julgo que não entendo totalmente.
Mas não era só disto que queria falar contigo. Já não me lembro, do que é que queria falar? Fico sempre perdido entre os meus devaneios… Distância, Energia, Amor, Luz… Natal! Era do Natal que queria conversar contigo.
Foi há 2150 anos que ocorreu o primeiro milagre da energia. Os cientistas chamam milagre aos fenómenos que não sabem ainda explicar, não totalmente. Foi numa pequena cidade; à semelhança de outras nesse tempo era suja, antipática e corrupta. Os habitantes, após um dia de trabalhos sujos, tinham-se recolhido nas casas e feito contas à vida.
Uma perturbação das forças cósmicas rasgou nessa noite as fronteiras entre os mundos. Julgamos que de início os habitantes da cidade tiveram uma sensação de calor no peito. Que reagiram com surpresa, mas sem medo, à emanação de luzes que lhes saltavam dos corpos. Uma luz branca que iluminava os caminhos. Ninguém sabe explicar, mas atribuímos a essa misteriosa luz as manifestações de Amor que ocorreram nas ruas da cidade. Mulheres desesperadas perdoaram os que cometeram ofensas sobre elas. Um homem muito rico decidiu recolher das ruas homens e mulheres famintos e ofereceu-lhes uma ceia. Um homem tirano apiedou-se de uma mulher grávida e cedeu-lhe a sua manjedoura quente onde ela pudesse dar à luz. Quando o bebé nasceu toda a cidade era luz. As pessoas juntaram-se ao redor da manjedoura e cantaram em harmonia e paz. As luzes refulgiram mais e subiram aos céus. Foi como se uma estrela brilhasse na cidade de Belém.
A mãe do recém-nascido falou: “Disse-me o Anjo que o reino Dele não é deste mundo. Quem O seguir poderá juntar-se a Ele numa vida eterna noutro mundo. Ama o próximo, é a verdade Dele”.
Nunca te esqueces que tens em ti a centelha do Amor. Esta noite reza, minha criança. Escuta dentro de ti os sussurros das energias. As palavras do Amor. Consegues senti-Lo?

[consultar mensagem da filha, id:42A29D64, nesta ligação]
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Sobre ruialex

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Esta entrada foi publicada em Electropunk, Ficção-Científica, Mini-Conto. ligação permanente.

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