O lago

Na página do Script Frenzy, um desafio proposto a escritores para que escrevem um argumento de 100 páginas em 30 dias, há um gerador de ideias que se dá pelo nome de Plot Machine. Permite que, através de associação de 3 frases, um escritor sinta estimulado, ganha ideias e escreva uma história. Só que é complicado, a maior parte das vezes as associações geradas resultam em coisas tão rebuscadas e (demasiadas) loucas ou mesmo não dão em nada de todo. Não deixa de ser uma ferramenta útil, e uma história pode ser criada, após várias tentativas, finalmente.

Where reality and fantasy intersect

a mermaid who doesn't know how to swim

is kidnapped by the Russian mafia

– É este o lugar? – perguntou o Mikhael, fechando a porta do pendura. Na carrinha preta o Ivan não lhe respondeu. – É um bocado deplorável.
Estavam rodeados de árvores altas e com cascas esbranquiçadas, numa perfeita sintonia com o céu. Relvas despontavam entre pedregulhos e grãos cinzentos. Até a luz era baça. Ali perto ficava uma pequena praia de areia branca que orlava um lago de águas escuras.
Enrijeceu as costas, maldizendo as tantas sacudidelas pelo meio daquele fim do mundo. Temera que não encontrassem nem o destino nem o caminho de regresso. Mais a falta de sorte quando o equipamento GPS ficara maluco e sem saber apontar o norte. Ivan tinha suspeitado que seria normal, estariam no extremo norte da Rússia e a concentração do campo magnético da Terra seria maior. Mas isso não tinha sossegado Mikhael. O alivio só surgiu quando descobriram, por mero acaso, o lago.
O Ivan punha o equipamento fora da carrinha. Uma rede de pesca com um cabo de meio metro, um fato de mergulhador, alguns pequenos bidões de alumínio e uma pesada botija de oxigénio.
– Achas mesmo que aqui teremos sorte? – perguntou o Mikhael – Também da outra vez disseste que havia e não encontrámos nada.
– Tenho a certeza que sim… – respondeu o Ivan, com as mesmas palavras da outra vez. – O local nunca foi explorado, não venhas agora com coisas. E o que fazes aí especado, pá? Esteja mas é atento, não sabemos se isto pertence a alguém.
Mikhael retirou do seu coldre uma Korovin e puxou o ferrolho para trás. Não esqueceu da sua tarefa. Voltou a guardar a pistola, afastou-se do Ivan, que se despia e guardava a roupa no chão da carrinha, e aproximou-se das árvores que guardavam a praia.
Descalçou os sapatos caros e as meias egípcias e deixou-os nas ervas secas e rarefeitas. Pisou as areias finas e brancas e percorreu os metros que o distanciavam das águas do lago escuro.
Farrapos de neblina erguiam-se do lago e agitadas ondinhas descansavam na margem. Pôs um pé na água e sorriu ao descobrir que estava morna. Inesperado nessa manhã friorenta.
A praia desaparecia da vista, perdida na neblina que irradiava um brilho difuso ora rosado ora celeste. Mikhael sentia-se tranquilo e seguro. Era um lugar mágico.
Iniciou um passeio, encantado com a luz e embalado pela brisa quente que banhava no lago. Distraiu-se com pequenas conchas e redondos seixos, os maiores ficavam mais perto da floresta. E viu um sulco na areia. Atravessava a praia desde o lago até à borda da floresta onde ele se encontrava. O sulco parecia ter sido desenhado por várias mãos. Olhou em redor. O lago mantinha-se imperturbável, as árvores nada denunciavam e a praia registava apenas as suas próprias pegadas.
O sulco principiava num arbusto debaixo de uma árvore. Afastou as folhagens e viu, num largo mas pouco profundo buraco, muitas ovas de peixe. Não era onde ele e o Ivan esperavam encontrá-las. As ovas estavam soterradas numa praia e não nas profundezas do lago, onde seriam o local normal para as procurar. Tentou recordar de um peixe que fizesse isso numa praia mas só lembrou das tartarugas, o que não podia ser pois eram animais de climas amenos e seus ovos eram de casca semi-rija. Estas ovas eram diferentes, pareciam ter o dobro ou o triplo do tamanho habitual, poderiam resultar num caviar bastante valioso, mesmo que não se tratasse de esturjão. Mas estavam já chocadas, pareceu-lhe. Estendeu um braço e de lá retirou uma delas. A cor perdeu-se um bocado mas sentia nos seus dedos a textura gelatinosa e um pouco de humidade. Seja qual for o peixe não deve ter eclodido do ovo há muito. Olhou para praia esperançado em ver um cardume que se arrastasse pelas areias até ao seu destino. Foi ter em passo de corrida e, chegado lá, deparou-se ainda com um exemplar.
Estranhamente não tinha nadado lago adentro. Apenas chapinava em água pouco profunda que mal cobria os pés do Mikhael. Ele pegou no peixe; não era maior que um dedo. Empurrava com o indicador o peixe contra a palma da outra mão, virando e revirando-o para observá-lo de vários lados. Parecia-lhe bem estranho. Tinha escamas na cauda, que se bifurcava em barbatanas, mas o torso era liso e menos pegajoso. Uns pequenos membros agitavam-se no ar. Um batráquio esquisito, pensou ele. Afastou umas penugens da cabecinha e ficou embasbacado ao ver que as suas feições se assemelhavam às duma humana. É uma sereia!
Afastou novamente os pequenos cabelos e segurou a cabecinha com os polegares.
– És muito gira!
Ela piscou os olhos e fitou o olhar do Mikhael. Os olhos de água cativavam e Mikhael ficou encantado com a criaturinha.
– Não consegues nadar, é esse o problema, é? Olha, tens que usar a tua barbatinha; assim, oh!
Mikhael exemplificou o movimento arrastando a cauda num movimento pendular.
– Estás a ver?
A criatura abria a boca muitas vezes, como se bocejasse, e Mikhael reparou que as guelras que ela tinha no pescoço não reagiam aos movimentos da boca.
– Não consegues respirar, é?
Massajou as guelras com um polegar e indicador, sem saber muito bem o que fazer e sem outras ideias.
– O que estás a fazer? – falou o Ivan com o seu característico vozeirão. Vestia um fato impermeável para mergulho. O seu nariz brilhava e o bafo de vapor acusava o esforço dele. Largou na areia a botija de ar que carregava.
– Que é isso que tens aí?
Mikhael escondeu a sereia entre as palmas das mãos e levantou-se. Sacudiu-se dos insistentes e curiosos contactos do Ivan mas não pôde evitar uma forte palmada no peito e caiu na areia. A sereia ficou largada a uns metros. Ivan pegou-a pela cauda e ergueu-a aos seus olhos.
– Que bicho esquisito é este…? Tem uma cara que parece a de uma mulherzinha. Devíamos levar isto, Mikhael.
Mikhael tossia, do seu peito o ar saía aflito.
– Nem penses! Larga aí, pá!
– Oh, sai da frente! Isto é muito melhor que caviar.
Quando Ivan tentou contornar Mikhael, levou uma investida nas costas que o fez estatelar-se na margem do lago num sonoro chape. A sereia afundou-se num salpico.
Mikhael investiu-se sobre o prostado Ivan mas apanhou na cara um golpe poderoso. O torpor desequilibrou as suas pernas e caiu na água. Ivan sentou-se em cima dele espetando sucessivos murros esparrinhados. Com muito custo, Mikhael mantinha a cabeça à tona da água mas cada vez sentia-se mais enfraquecido. Tentou agarrar no coldre mas fugia-lhe da mão. O peso do Ivan e o sufoco da água deslizavam Mikhael pelo declive submerso até mais fundo. O Ivan cansou-se de bater na água e empurrou os ombros do Mikhael até tocarem na terra.
Num gesto desesperado, Mikhael agarrou num bocado de areia e lançou-a. A lama ficou colada na cara do Ivan e nos seus olhos. Ivan cometeu o erro de levar ambas as mãos aos olhos. Um valente sopapo emergiu das águas e esmagou-lhe o nariz. Ivan dirigiu os dedos ao nariz.
Mikhael respirou profundamente, sacudindo-se de debaixo do Ivan e soltou um pontapé. Levantou-se demoradamente e rolou Ivan pela água até à parte mais funda. Ivan resistia mas ficou prostado de costas e sentiu as forças de uns joelhos ao redor do seu pescoço. Esbracejava sofregamente, braços e pernas chapinhavam com força na água.
Mikhael manteve-se estoicamente em cima dele. Observou as últimas golfadas de ar que arrebentavam na tona da água. A turbulência da água que acalmava. A imagem do rosto afundado que ganhava contornos. A areia e sangue que flutuavam ao redor de olhos, revelando um olhar que fitava o seu. Que fitava o nada.
Olhou para onde a sereia estava. Ou melhor, para onde a sereia não estava. Ela já deveria estar onde estão os seus irmãos no mais profundo do lago.
A única coisa que Mikhael resgataria do lago nessa manhã seria o corpo do Ivan.

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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
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