Biblioteca de Conhecimento Multiversal

Há uns tempos foi organizado um concurso de contos com o tema "Livros", pelo Colectivo Fénix. Os contos vencedores estão publicados no Fénix Fanzine #2.
Também este concurso estimulou a vontade em escrever um conto e participei no desafio. Além de ter ultrapassado bastante o limite de palavras, acho que não fiquei agradado como o conto ficou finalizado, não gosto muito.
Estava na dúvida se devia ou não publicar o conto, mas pensei por fim que um dos interesses do blog é servir de arquivo e puder avaliar a evolução da escrita, acho positivo também partilhar os menos bons resultados.

O rapaz mirou o imponente paralelepípedo negro que se erguia no centro da sala branca. Deslizou a mão na superfície baça, numa lenta descoberta do objecto, tacteando em busca de uma escondida interface ou alguma coisa que lhe permitisse aceder ao conteúdo do paralelepípedo.  Sem que ele se apercebesse, alguém entrou na sala e surpreendeu-o.
– Rapaz, estava à sua espera. – disse o guardião – Os meus colegas explicaram-te porque estás aqui e qual será a tua missão?
– Não muito. – respondeu o rapaz – Apenas sei que possuem uma biblioteca de valor inestimável, que é importante preservar e manter oculta, que seria um perigo se exposta ao conhecimento público. Que contavam comigo, disseram que sou especial, por isso fui escolhido.
– Sim, rapaz, és especial. – disse o guardião, com um enfado na voz que o rapaz notou – Muito especial. Vou explicar-te qual é a nossa missão e a história sobre esta biblioteca. – disse, de olhos postos no paralelepípedo negro.
O rapaz observou a biblioteca. Era-lhe algo estranho, sem dúvida, não compreendia que tecnologia pudesse desenvolver essa estrutura.
– Esta biblioteca não é do nosso tempo. – retomou o guardião – Foi construída num futuro pouco longínquo. Alguém decidiu criar um repositório com todos os livros de ficção-científica e fantástico publicados em português. Com o passar dos anos, o projecto cresceu e colaborações surgiram. Começaram a incluir livros de não-ficção, as revistas e periódicos, enfim, tudo o que fosse livro. Tornou-se num projecto mundial e suportado por entidades governamentais e académicas, e transferiram o conhecimento de todas as bibliotecas para o repositório.
O rapaz ouvia o guardião, impressionado com a narração, mas interrogava-se porque ali estava.
– Até que se tornaram possíveis as viagens do tempo. Ansiadas por recuperar os livros em falta e ressuscitar os conhecimentos de civilizações desvanecidas, estas entidades arquitectaram um plano e enviaram a biblioteca para os primórdios da nossa história e desde então foram recrutados novos guardiões, às escondidas, pois seria uma arma perigosa para as mentes primitivas. Fomos sempre digitalizando os documentos na biblioteca. Não é fácil, impossível até saber quando algo é publicado, por exemplo. Essa é a missão, fazer a colecta dos livros dos nossos tempos e preservar a biblioteca para as próximas gerações, até chegar finalmente às mãos dos que arquitectaram os procedimentos.
– Não seria mais fácil enviar a biblioteca para o futuro? – interpelou o rapaz – Afinal, se vocês têm tecnologia de viagens de tempo.
– Mas se enviássemos hoje, por exemplo, o que faríamos com os livros publicados amanhã? Há um processo a respeitar, não nos compete duvidar do plano. Olha, até temos a parte mais fácil pois estamos limitados num espaço fixo: o planeta. Daqui a uns milhares de anos acontecerá um cataclismo global que forçará a humanidade a partir para outros planetas, depois para outras galáxias. Nem imaginas as complicações necessárias para reunir os milhares de anos de informações de cada biblioteca espalhada pelos confins do espaço. Digo-te que é preciso milhares de anos a estabelecer comunicações pois também mil milhares de anos durou a expansão espacial da humanidade. E nem te falo de entre os multiversos.
– Então, esta biblioteca… tem os conhecimentos do futuro? – questionou o rapaz.
– Sim, tem tudo do futuro, aqui aprendi a sua história de mundos e eras atravessadas. Só falta mesmo o passado deste planeta, é uma coisa ínfima em comparação, talvez mesmo até dispensável, mas é o que falta. Já é de uma terceira ou quarta viagem, passamos por isto várias vezes, deixamos sempre livros de fora. Interrogo-me o que fizeram com o conhecimento adquirido de milhões de anos futuros, não está aqui registado, não sei se por algum motivo ou protocolo. Como já enviaram várias vezes, imagino que…
– Espera! – interrompeu o rapaz – estás a dizer que tem todo o conhecimento possível? E que eu posso aceder ao conteúdo?
– Sim, podes aceder. E aprender muita coisa. Eu, por exemplo, tornei-me imortal. Espero vir a conhecer os arquitectos. Um aviso só, rapaz, há uma regra fundamental, como deves ter percebido: não podes partilhar a informação a mais ninguém senão aos guardiões. Ninguém está preparado, é demasiado cedo. A civilização ainda não tem maturidade, não passa de uma criança que pinta fora das linhas nos livros para colorir.
O guardião observou em expectativa o rapaz que demorou um certo tempo a absorver a novidade.
Finalmente! A resposta vai ser revelada, a resposta à pergunta que ele sempre quis fazer, aquela que inquietava o seu espírito desde os primeiros momentos que se apercebeu que a vida nunca seria lá muito amiga dele.
– Como posso… existe algum livro que… que me ensina a falar de Amor?
O guardião perscrutou o olhar do rapaz e reconheceu a desesperada ânsia de ter essa capacidade. Já contava com essa pergunta, já antes lhe foi colocada. Aliás, ele próprio também fez essa pergunta a um dos guardiões anteriores.
– Rapaz, muito se descobriu sobre tudo e mais alguma coisa em todo o fio do Tempo desde que o Homem formulou a primeira pergunta. Todo o conhecimento compilado está aqui armazenado. Todas as respostas aos mistérios e às certezas da Vida. Sabemos manipular a Luz, derrotar a Morte e ter uma vida sem pagar impostos. Mas essa capacidade, saber falar de Amor, é justamente a única coisa que foi impossível alguma vez descortinar. É uma arte, mas uma que não se ensina nem se aprende. Isso é algo que ou se tem ou não se tem. Contudo, há um extenso manancial de livros de auto-ajuda, caso acredites nessas tretas.
Um desânimo preencheu o rapaz e apertou-lhe o coração. Nunca conseguirá conversar com aquela linda mulher de olhos azuis. Nunca descobrirá o sabor de um seu beijo, a ternura dos seus braços e o conforto do seu regaço. E apercebeu-se nesse instante o significado de “especial” com que foi distinguido: para se ser Guardião é preciso ser devoto à tarefa e não ter o coração preso a alguém. O rapaz pensou em aceitar a tarefa que lhe estava destinada, afinal não havia nada por que almejar. Só não iria pedir a imortalidade, escusava-se de prolongar a sua miséria de vida para além do necessário.
Só lhe restava o conforto proporcionado pela leitura dos livros. Se calhar iria acabar por prescindir de ler os livros de ficção, muito gostava de perder-se por mundos fantásticos e conviver com personagens encantadoras, mas regra geral as histórias acabam com o herói a braços com a amada e o regresso à solitária realidade é simplesmente amargo. Até os anti-heróis têm essa sorte…
Apenas vai dedicar-se à leitura de não-ficção, ensaios, crónicas e artigos. Mas com um repositório quase ilimitado, por onde começar a aprender? Ou pior, que o conhecimento seja auto-sustentado e indivisível. Se ele fosse directamente a um corolário de todo o conhecimento passado, o que lhe ficaria? Nada. Continuaria às escuras pois não estaria receptivo a essa luz.
Mas aquilo que mais fazia hesitar na decisão em ler os derradeiros livros da humanidade, foi um receio de que lhe fosse revelado qual o sentido da Vida. Suspeitava de uma ideia, que seria uma força tão poderosa que, mesmo ausente, sentia-se tão intensamente, e isso mesmo os livros o comprovariam: a Vida é feita para amar.
Sentindo-se um reles, só lhe restou indicar uma pergunta impensável ao guardião, que devolveu-lhe um sorriso benevolente como resposta.
Como posso aceder à colecção completa da Playboy?
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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
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2 respostas a Biblioteca de Conhecimento Multiversal

  1. Pena não ter sido escolhido. Falei com uma das editoras da Fénix sobre um texto meu que estava no blog. Não o enviei porque pensava que ela o ia tirar do blog. Afinal não deve ter sido assim (ou passou para o nº feminino)

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    • ruialex diz:

      Nestes casos o melhor é respeitar o regulamento pois facilita o trabalho dos editores mas fala novamente com ela e saber a sua opinião, creio que estão sempre abertos a diálogos com autores. Pode ser que seja analisado para o nº feminino ou os seguintes.
      Oportunidades não vão faltar.

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olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

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