Desejo d’Alma

Este é o outro conto submetido ao concurso Antologia Lisboa Electropunk (título provisório).
Havia outro concurso, Erótica Fantástica, que terminava também pela mesma altura. O senão deste é que tinha de ser uma abordagem erótica, algo que não me atreveria tão cedo em experimentar pois concerteza só sairia badalhoquice. Pensei depois, num pico de confiança, em arriscar no erotismo, e porque não, desde que assumisse em ser bastante ligth senão ficava mesmo esquisito, isto não é fácil!
Bem, com dois concursos com praticamente o mesmo prazo ocorreu-me brincar com o perigo e submeter o mesmo conto aos dois! Poderia haver complicações, sim, mas já contava que não fosse seleccionado em nenhum :P Portanto este contito é meio erótico e meio electropunk: é um conto eroelectropunk (não resulta bem este termo, afinal).

João ergue a sua vareta eléctrica, a ponta desta emite um brilho intenso e liberta uma onda electromagnética que reenvia um espírito capturado ao mundo dos mortos. O João recolhe a vareta de metal num coldre de borracha na sua cintura e junta-se à sua equipa de exorcistas que ultima a operação de despolarização. A equipa, constituída por 5 jovens homens, está posicionada num dos bairros mais ricos da cidade, um local sumptuoso e majestoso que impressiona o João, que é destacado para o local pela primeira vez, e é substancialmente diferente do bairro proletário onde vive. Fontes brotam luz, as árvores ostentam formas geométricas luminosas, os edifícios de metal e vidro irradiantes, tudo é tão cheio de luz que tornam a noite imensamente clara. João observa o monocarril elevado que parte de uma estação situada no décimo piso do edifício mais alto e percorre uma ponte entre edifícios que faz parte de um sistema que liga os mais importantes do bairro e estende exclusivamente para os dois bairros ricos adjacentes. A luz do monocarril risca o céu negro e ilumina as faces dos aristocratas no interior, que observam do alto os peões cá em baixo. João retribui-lhes o olhar à medida que eles passam por perto da central eléctrica que está um pouco afastada dali, que possui uma gigante torre Tesla que alimenta o bairro e é onde a equipa de exorcistas se dirige para limpar a área de espíritos que ali surgem com frequência.
A roupa, de linho, couro e borracha, dificulta os passos dos membros da equipa e, após um árduo dia de trabalho, cola-se-lhes ao corpo. Nas costas carregam pesadas maquinetas, ensacadas em mochilas de couro, que geram correntes eléctricas para produzir campos magnéticos. Estes são propagados pelas varetas de metal ligadas às maquinetas e despolarizam o meio circundante, cessando a existência de espíritos que se encontram no raio de alcance.
A equipa encontra-se próximo da central quando uma descarga eléctrica sai disparada no ar, proveniente da central. As luzes dos candeeiros na rua tremelicam momentaneamente e arrepios são sentidos nas nucas dos membros da equipa. As cargas eléctricas se cruzam no ar desequilibrando a polaridade local, dilatam o ar e abrem canais entre este mundo e os do além. A luz da rua refracta-se nas partículas destes canais e brilhos de diferentes cores dançam difusamente. Através deles surgem formas translúcidas, ganhando aspecto de gente, de tez e brilho azul-acinzentado, e vagueiam sem vida e sem rumo na clara noite. A equipa saca das varetas e avança para a tarefa rotineira da exorcização enquanto o chefe recita algumas orações, uma tradição que é adoptada desde os primeiros exorcistas que foram padres católicos.
João afasta-se um pouco da equipa, retira a pesada mochila de si e recosta-se à parede de liga metálica de um anexo, não se sentindo útil no momento. Assiste ao desempenho da equipa e observa os espíritos, apáticos e silenciosos, a serem afastados pelas varetas eléctricas e a desaparecerem um a um. Sem qualquer temor, em plena aceitação. Talvez eles estejam resignados e desejem voltar ao seu mundo. Em quantos mundos deverão viver, que coisas incríveis há nesses mundos e em que diferem deste? Quão interessante seria entrar num outro mundo e sondar os mistérios do além, a única coisa que assim impede é o próprio corpo que pulsa de vida e aprisiona a alma.
Ou será que há apenas um mundo, populado por ambos os vivos e os mortos. Mortos que frequentavam diversas eras, agora libertos dos seus mortais corpos, erram-se por este mundo sem terem para onde ir e, porventura, procuram contacto com os vivos. E se o ambiente carregado de partículas eléctricas torna os mortos visíveis para os vivos e o processo de despolarização apenas esconde a verdade dos olhos? Cada vez mais a sociedade progride tecnologicamente e a electricidade infiltra-se em mais processos do quotidiano, deste modo a exorcização revela-se ineficaz e a sociedade tem de lidar com o horror de ter de conviver com os mortos.
O João é desperto dos seus devaneios por um movimento ao seu lado. Um espectro em figura de gata salta para cima de uns tubos juntos ao anexo, num movimento decisivo. Ela fixa o seu olhar no João. Apesar de ser uma figura translúcida e azul, parecia ter olhos opacos e vivos, pelo modo intensivo com que o olhava, como se para dentro dele, para o seu mais profundo âmago. Ela desce para o chão e percorre uns metros, estaca e dirige o olhar para trás sobre o ombro. Abana a cauda compassadamente  em direcção à sua cabeça como se convidasse o João a segui-la. Ele estica seu corpo e sente curiosidade sobre aquele espectro. Olha para os colegas que estão concentrados nuns outros mais adiante e volta a observar o comportamento estranho da gata, decide sujeitar-se à sua curiosidade e segue atrás dela pelos becos entre os edifícios da central. A gata atravessa um muro como se atravessasse ar e João prontifica-se a saltar por cima, com algum esforço e atraso, o atrito prende a roupa de borracha. Perde, momentaneamente, de vista o espectro mas vê-o mais à frente. Este está prostado mas parece diferente, está maior e ganhou mais curvas. Levanta-se e revela uma nova figura, uma imagem de jovem e nua mulher. Os seus olhares fixam-se por algum tempo e ela ganha uma cor vermelha. O rubor sobe à face do João e o seu olhar acompanha as curvas da roliça vermelha, preenche as largas ancas e prende-se nas coxas gordas e convidativas. O ar enche-se de carga eléctrica e João sente a sua pele arrepiar-se e o seu coração debater-se. Ela recupera a cor azul e foge para um lugar mais recôndito. João sente-se excitado mas não sabe como proceder. Os contactos de cariz sexual com os espíritos são proibidos pela lei do Rei, puníveis com pena capital. Além disso é perigoso, quando não mesmo mortal, envolver-se sexualmente com os espíritos, pois diz-se que os espíritos sugam a força vital e que no fim as pessoas sentem-se diferentes, as suas personalidades ficam alteradas. O João já perdeu grandes amigos à conta dos espíritos e da lei.
Recorda-se da única vez que teve sexo com um espírito. Quando era um rapazinho, quando ainda não tinha um corpo desenvolvido e longe de ouvir falar em sexo, tinha um amiguinho, filho de aristocratas, que trouxera consigo uma vez a maquineta Psicorelatiomato que resgatara às escondidas dos seus pais. Esta maquineta, pequena e que tem a forma de pneu, só se encontra no mercado negro por um elevado preço já que é proibido e muito procurado. Comporta no seu interior duas pilhas voltaicas, um motor e um intrincado circuito de cobre. Encaixa-se no pescoço como se de uma coleira se tratasse e desempenha duas funções fundamentais. Uma é gerar um campo electromagnético a uma determinada magnitude para atrair espíritos e provocar excitação neles, algo que se verifica quando alternam a sua cor de azul para vermelho. A outra função é proteger a sanidade do utilizador com o motor no interior da maquineta encostado na nuca, cuja vibração e pequenas descargas eléctricas desperta-o a tempos regulares, impedindo a sua mente se perder durante o acto com o espírito. Não é totalmente eficaz, a personalidade de uma pessoa pode ainda sofrer alterações, mas em certa medida é seguro se usado por algumas vezes. João e seu amiguinho usaram-na uma vez sem consequências e o prazer que João teve com um espírito foi assombroso. É uma explosão de sensações que extravasa o corpo, uma experiência sublime e transcendente. Mais recentemente, teve a oportunidade de possuir pela primeira vez uma jovem gostosa mas sentiu-se defraudado com a experiência, estava à espera de algo mais, algo que só sentiu naquela vez em pequenino.
Por isso agora se encontra indeciso, teme pela sua vida se alguém o encontrar naquele beco escuro com o espírito e também é um risco sujeitar-se sem um Psicorelatiomato, mas por outro lado sabe que não voltará a experimentar aquele prazer se deixar passar esta ocasião, principalmente quando o espírito se entrega a ele. Dobra a esquina e vê-a quieta, emitindo uma aura vermelha, como se esperasse por ele, num beco onde a luz da cidade não chega e não há olhares indiscretos. João admira a sublime figura radiosa à medida que se aproxima, a um passo lento, e a sua excitação deixa-o em polvorosa. Sente o seu membro a latejar e empurrar contra o tecido do seu fato de borracha, num acompanhamento da forte batida do seu coração que parece ter multiplicado de tamanho para além do suportável pelo seu franzino corpo. Ele despe impacientemente o fato para libertar o fulgor emergente do seu membro. Sente no corpo a energia que ela emana e os seus músculos retesam do choque. Cautelosamente fica à frente dela que está aguardando que ele descobre-a.
Ele estende a mão e toca no braço dela com as pontas dos dedos. Dá um pequeno urro de dor e afasta rapidamente a mão, a pele dela é bastante quente. Ela continua impávida mas sorridente. Ele fica confuso, não se lembra daquela vez em pequenino ter sentido o espírito. Ele volta a tocá-la, mais levemente, averiguando se o toque queima mas descobre que tolera bastante bem o fogo que ela é. Aperta-lhe o braço sofregamente e seus dedos mergulham dentro dela, como se atravessasse água, e sente espasmos em cada músculo, resultando em movimentos frenéticos e impossíveis dos dedos, esticados e torcidos numa mole e acelerada massa. Abre a mão, à cautela e com embaraço, e volta a fechar, muito devagar, no braço dela, notando uma resistência que dificulta fechá-la em punho, como se aproximasse um íman de outro, até que num ápice seus dedos entram novamente dentro dela. O calor dela preenche o corpo do João que sente imenso prazer enquanto penetra a mão por completo numa espasmódica azáfama no interior dela.
Ela ergue o outro braço e afaga o ombro dele, desliza a mão pelo pescoço e acaricia-lhe a face. Ele fecha os olhos com força e relaxa os lábios, suspirando pesadamente enquanto o calor penetra pelo seu rosto, invade o crânio e aquenta o seu cérebro. Ele delira de prazer enquanto sente os dedos dela brincar e remexer dentro da sua cabeça. Cores fortes e berrantes se aceleram na sua mente, uma música épica ecoa estrondosa e sente ser transportado repetida e rapidamente por diversos mundos maravilhosos, num zapping viciante.
João coloca de modo ansioso as mãos nas ancas dela. Sente o formigueiro nas pontas dos dedos e uma electricidade a percorrer os braços acima. As mãos, sem procurar atravessar a superfície, rodeiam-na e alcançam as costas. Chega-se junto dela e abraça-a. O seu membro duro encosta-se à barriga dela, atravessa-a e incha como um balão enquanto se chicoteia violentamente, e João atinge um imediato êxtase.
O espírito dela engole o João, cujas pernas tremem e falham-no. No chão ela não larga o agitado corpo. Ela procura entrar em contacto com o espírito do João, no mais profundo interior do seu corpo. O choque anímico ocorre. O espírito dela une-se com o espírito do João, que sente a abandonar o seu próprio corpo. Ele vê uma imensa luz branca e serene a rodeá-los e nunca lhe pareceu ter visto a cidade tão brilhante e luminosa como nesse momento, as suas sensações estão potenciadas e tudo absorve ao mais ínfimo detalhe. Assiste horrorizado à multidão de espíritos presentes no local, agora visíveis para si, figuras de gentes, animais e monstros percorrem o beco ao redor dos dois amantes. Ela chama-o para si, quer que ele dedica-lhe a atenção e dá-lhe prazer. Sem as vozes que nunca expressariam o alcance da verdade, sem os olhares que nunca revelariam a completa entrega, sem as caricias que nunca explorariam a imensa paixão, os dois descobrem-se e amam-se como muitos poucos afortunados em vida. Suas consciências são unidas, os pensamentos dela tornam-se dele, os desejos dele são dela, ela explora as experiências vividas por ele, ele descobre os temores dela, partilham as alegrias, as tristezas das duas vidas. Tornam-se num ser singular. João completa-a. Ela é sua. A adorada, que agora compreende que encontrou-a mesmo que não andava à procura dela. Quer muito que este momento se prolonga para sempre e sente desvincular-se permanentemente do seu corpo e juntar-se a ela naquela realidade.
Alguns espíritos aproximam-se deles, mais e mais. As suas cores azuis estão um pouco apagadas, como se estivessem sob um qualquer manto. Fortes luzes brancas surgem e João reconhece então os espíritos, apercebe que nesse momento, para seu horror, ele e a sua adorada serão separados. Ele pensa em fugir e despede-se dela. Um elemento da equipa de exorcistas atinge nas costas do corpo do João com uma vareta eléctrica, quebrando a união anímica. O espírito da adorada transforma-se numa ave azul e tenta fugir das varetas da equipa. Os membros desta despolarizam os cantos do local e por fim deitam o olhar no João, inconsciente e sujo de tanta luxúria.
Meses passam. É instaurado um processo de heresia e crime sexual ao João, no Ministério de Negócios Eclesiásticos e de Justiça. João não prestou quaisquer declarações pois, desde a noite com o espírito, a sua mente desapareceu e é agora apenas um corpo inanimado, salvo raras excepções em que os enfermeiros do Hospício Régio juram ouvir da sua balbuciante boca a palavra “Adorada”. Apesar da sua condição mental foi julgado por um padre católico da Congregação do Santo Ofício e condenado a cumprir a pena capital. Será executado na cadeira eléctrica, um instrumento de execução moderno e humano que emprega tensões de 2.000 volts ao sentenciado.
No dia marcado, Véspera de Natal, depositaram o seu corpo na cadeira, raparam a sua cabeça e aí colocaram uma esponja molhada para melhorar a condutividade da electricidade pelo corpo. O silêncio do João é compartilhado por todos os presentes, elementos da prisão, clérigos e figuras do reino, que solenemente assistam ao procedimento. É disparada uma corrente eléctrica de alta voltagem que percorre a cadeira e o corpo durante segundos. Quando cessam a corrente eléctrica e o médico presente ausculta o coração do corpo, uma das testemunhas vê por momentos ao lado do corpo prostado um doppelganger com a figura do João com um largo sorriso na face, surgindo-se por trás do médico. Este estende dois dedos a pedir a alguém pela segunda descarga eléctrica. O espírito do João regressa ao local daquela noite electrificante e reencontra o espírito da adorada. Dão um abraço e nunca mais serão separados.

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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
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4 respostas a Desejo d’Alma

  1. Adorei! Conseguiste uma sensualidade delicada no texto, espirituosa, tal como o tema requeria, e estragaste tudo com a palavra “esporra”…

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  2. ruialex diz:

    xD, estraguei, não foi?
    também não sou fã, pensei que um momento à David Soares podia dar-me mais chances. À laia de justificação, isso ocorre quando regressamos à realidade carnal, ficou no sítio certo.

    Obrigado pelas palavras, a sério que consegui? Fico muitissimo contente que tenhas adorado.

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  3. Não tens de ser o David Soares, tens de ser tu próprio. Corrige a palavra e fica óptimo.

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olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

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