Canhão de Lisboa

Foi anunciada a lista dos autores integrantes na antologia Lisboa Electropunk (título provisório) a ser publicada pela editora Saída de Emergência. O organizador, João Barreiros, deixou um curioso texto como se procederam os trabalhos, a ler aqui. Uma experiência desagradável para muitos mas tenho um palpite que, passados uns dias na nossa realidade, alguns deles vão sentir desejo de regressar à cave arquitectada pelo organizador. Comigo foi diferente: num local confortável, só diversão :)

Para esta antologia submeti dois contos. Achei que até podia ter hipóteses com um deles, tinha uma estrutura que podia chamar de convincente e o final até está engraçado. Talvez tenha ficado parecido com o conto do organizador em vários aspectos, o final nesse sentido está similar. Pensei que isso seria um mais-valia, era do modo que o teor da antologia ficasse mais homogéneo, daí que segui com a minha ideia.

A publicação do conto fica para mais tarde. Agora fica a vez do segundo, escrito após o término do anterior e por isso livre de pressões. Não que tenha ficado melhor ou até decente. Aliás já contava que não fosse escolhido porque é um flagrante caso de desrespeito pelo regulamento. Para começar a história deve ser passada em Lisboa. Pus em Berlim :P

Devia se possível emular o espírito e conhecimento de um escritor do início do séc. XX, nada de adoptar palavras e termos ainda não criados. Eu acabei por usar alguns que ou não existiam ou ganharam um novo sentido no advento da 2ª Guerra.

Por fim o rigor. Não há nenhum. De um modo desavergonhado escrevi bastante bacorada científica. Aposto mesmo que o organizador, após pesquisar pronta e rapidamente pelo google e wikipédia, tenha exclamado: mas este gajo! isto é só bacorada científica!!

Um conto que serviu mais para diversão que outra coisa, portanto :)

Aqui vai:

Tenho o traseiro dorido e enregelado enquanto me escoltam pelo bosque à entrada da grande Berlim numa manhã fria. A estrada é bastante pedregosa e sinto cada solavanco a maltratar-me enquanto o carro militar avança apressadamente ao destino que nos aguarda há muito. O carro pode ser uma besta de guerra mas não está equipado com conforto, um capricho ignorado pela Grosse Germânica. Escrevinho este apontamento no meu bloco de notas mas as movimentações do carro dificultam-me a escrita. Espreito pela estreita seteira. O céu limpo mas cinzento entristece-me e reparo, sobre o rápido movimento das copas das árvores juntas à estrada, no destaque da ponta da Big Bertha, um enorme canhão, o orgulho da Nação.
O carro entra na clareira onde está situado o canhão e pára a uns metros deste. Saio fora, aliviado por poder relaxar o meu rico traseiro. Admiro a grandiosidade e imponência do canhão perante mim: a sua base é larga como o Palácio de Reichstag, as suas paredes de metal são pontuadas por diversas e enormes varandas, escadas e entradas, e por onde circulam os vigilantes soldados da Grosse por entre as várias instalações interiores do canhão. O seu tubo liso é longo como a Ponte Heidelberg e está disposto num ângulo que desafia o engenho, tal é a altura que a ponta do canhão atinge. O recorte do tubo no céu cinzento faz-me endurecer o pescoço.
O soldado que me acompanha exaspera quando me vê empunhar o bloco de notas.
– Deixa isso, estamos com pressa. – diz numa voz áspera como o bafo que lhe sai da boca nesta manhã gélida.
– Só estou a fazer o meu trabalho. Vá, depois de si. – peço-lhe então, para que o siga pelo canhão. Entramos por uma porta entre colunas de metal, que ostentam um friso entalhado com estátuas de heróis e guerreiros de cobre e estanho, e percorremos em passo rápido os corredores frios iluminados em todas as suas extensões. Encontro um sinal de perigo numa grande porta, atrás desta uma abafada cacofonia de máquinas prende-me a atenção, é um som horrível, que trabalhos podem máquinas a desempenhar no interior de um canhão? O soldado chama-me a atenção para entrar num elevador onde ele está, que me leva ao cérebro da Big Bertha.
– Estava a ver que não aparecias! – exclama o tenente quando entro na sala de operações. No centro está uma mesa grande e oval cheia de papéis e mapas, ao redor está o tenente que fica especado a olhar para mim e os restantes oficiais e várias pessoas de bata branca debruçados sobre os papéis. Vários soldados ocupam-se de máquinas colocadas junto às paredes.
– Com sua autorização, – diz o soldado que me acompanha, fazendo continência ao tenente – a culpa é minha, entrei por engano num caminho – –
– Vai ser disciplinado por isto, soldado! – vocifera o tenente – Fez-nos atrasar a operação Ano Novo, e os nossos soldados em Lisboa correm maior perigo quanto mais tempo lá ficarem!
– Sim, meu tenente!
– Cabo, pode então avisar Lisboa – diz o tenente mais calmamente a um soldado sentado defronte de uma máquina. – que podemos avançar com a operação Ano Novo e vamos já disparar o tiro.
– Sim, meu tenente. – diz o soldado da máquina que activa pequenos interruptores e ergue à sua boca uma caixa afunilada – Cardume, a Águia vai largar o ovo. Repito, a Águia vai largar o ovo.
– Tu és o repórter escolhido pelo Fuhrer, certo? – diz o tenente sem olhar para mim, já concentrado na  mesa – Pode circular por aí e aponta então as acções deste … histórico dia. – finalizando em sussurro.
Ergo o bloco, amoleço o carvão do lápis com a língua e preparava para citar o tenente quando ouço uma voz crepitante da máquina.
– Entendido. Cardume vai olhar o céu. Repito, Cardume vai olhar o céu.
– Meu tenente, o submarino vai colocar-se em posição, ficamos a aguardar.
Os oficiais trocam palavras entre si, gesticulam com os da bata branca, que remexem os papéis da mesa, dactilografam em espécies de máquina de escrever eléctricas enquanto soldados concentram-se em diversos interruptores nas grandes máquinas nas paredes e alguns abandonam a sala em passo rápido. Entre o frenesim deles espreito alguns mapas na mesa, um destes é da Europa que tem desenhadas muitas formas ovais encaixadas, de formas irregulares, cada uma constituídas por pequenas setinhas que redemoinham numa direcção. A um traço grosso, vermelho, curvas setas atravessam ininterruptamente Alemanha, Bélgica, França, Espanha e Portugal, acompanhadas de diversos números e expressões matemáticas. Noutro mapa está “Lisboa” escrita em letras grandes na margem e vejo diversos símbolos desenhados na foz do rio, da mesma cor que o anterior mapa. Aproximo-me da grande janela para apanhar mais luz enquanto escrevinho alguns pormenores, depois espreito pela janela e reconheço algumas formas familiares. Saio para a varanda e, debaixo do largo tubo do canhão que tapa meio céu, observo para além das árvores Berlim coberta de uma densa neblina. Os tons baços e ténues dos edifícios evocam uma certa tranquilidade e ignoram a guerra distante, a milhares de quilómetros daqui.
Não estou sozinho na varanda, está aqui presente um soldado da Grosse, de olhar distraído para a neblina, empunhando uma arma, uma… como é que se chama?
– Olá, qual o nome dessa arma? – perguntei-lhe. Ele tarda a olhar para mim, demorando na resposta.
– Hm? Oh, sim, é uma Feuerspucken. Porquê, nunca viu uma?
– Não estou muito familiarizado, mas sei que dispara bolas eléctricas, certo?
– Sim. O aparelho que carrego às costas serve para isso mesmo, cria energia que descargo depois pela arma. – respondeu-me, curta e secamente.
– E o canhão – aponto para cima para o cano – também funciona da mesma maneira?
– Não, continua a ser por projectéis. Mas também usa electricidade. – Mais não disse. Bom, é certo que ele não é nenhum especialista, não vou adiantar muito com esta conversa.
– Bem, vou regressar à sala, sou ali preciso.
Na sala mantém-se o frenesim, todos à volta dos papéis à mesa e das máquinas que despejam rolos de papéis com alguns dizeres. Os da bata branca aglomeram-se à volta das máquinas, trocando acaloradas
impressões.
– A estação D regista ventos de 20 nós de nordeste, – diz o soldado que controla o aparelho de comunicações – e o submarino regista ventos de 30 nós de norte.
Os da bata branca entreolham-se, acenando as cabeças vigorosamente. Um deles dirige-se ao tenente e este depois dirige-se a outro soldado que também opera uma máquina. Alguns interruptores são accionados e algumas lâmpadas ficam acesas. Ouço um estridente som, alto, insistente e ritmado, vindo do coração do canhão. Assustei-me de início mas, na verdade, o som é bastante agradável, parece-me ouvir mil chicotes a bater nas costas de escravos, uma e outra vez, sem fim.
– O que se passa? – dirijo a pergunta a um oficial presente, nada impressionado com este alto som.
– São as máquinas do canhão que estão a gerar energia, vamos disparar um ôbus de 3 toneladas para a cidade de Lisboa.
– Lisboa?! – exclamo, incrédulo. – Mas está a milhares de quilómetros, isso é possível?
– Espero bem que sim, mas também desconfio. Os cientistas é que dizem que conseguem, e já fizeram alguns testes e dispararam para o Mar Báltico. Pequenas ilhotas ficaram completamente desfeitas, tal é o choque e a velocidade do ôbus. Contudo, este canhão é o primeiro desta envergadura e Lisboa fica 5 vezes mais distante. Mas seria sensacional, sim. Lisboa… não, a Europa inteira, tremeria de terror ao descobrir este nosso poderio. Arrasar um bairro inteiro só com uma bala, você imagina?
– Impressionante, e isto sem alocar os nossos soldados nem pilotar os nossos dirigíveis! Logo Lisboa, a sua queda estratégica seria o princípio de uma definitiva derrota do Eixo Ibero-Britânico!
– Sem dúvida nenhuma!
Dirijo-me outra vez à janela, expectante pela visão do tiro. Parece-me que o tubo do canhão está muito próximo sobre as nossas cabeças mas o soldado na varanda ali permanece, despreocupado, por isso não devo ter que recear. Berlim desapareceu, engolida pela neblina que agora afaga as árvores próximas da clareira onde está o canhão.
– Tudo pronto? – pergunta o tenente.
Fixo o olhar na ponta do longo tubo.
– Fogo!
Um ríspido som ecoa pela sala, fazendo-me estalar os ouvidos. Não consegui seguir a trajectória do projéctil, mas reparo ao longe, no meio do céu, um ponto que se move até desaparecer da vista.
– Cardume, às 35 por 9 local, a Águia largou o ovo! – diz o operador das comunicações. – Repito, 35 por 9, Águia largou o ovo!
Os cientistas dão pequenos apertos de mãos e os oficiais mantêm o silêncio. Cruzam-se os braços, sentam-se em algumas cadeiras da mesa. Agora é só aguardar.
Aproximo-me de um cientista que está sempre ao lado do tenente, pode talvez dar-me algumas informações técnicas sobre o canhão.
– Suponho que você é o responsável pelo canhão?
– Suponho que você é o repórter.
Esboço um sorriso.
– Certo. Acho que é um canhão impressionante e estou interessado no seu funcionamento. O que você me pode dizer sobre isso?
– Muito bem. – disse, após consultar o relógio no seu colete – Para começar, a principal diferença entre este canhão e os predecessores é o sistema de propulsão. Para disparar uma bala usávamos a pólvora, ou uma carga explosiva similar, e a explosão decorrente empurrava a bala que, confinada num longo tubo, só teria uma determinada projecção.
– Sim, sim.
– Este canhão usa o mesmo princípio de projecção, daí adoptarmos o tubo longo, mas a propulsão tem como base a electricidade. Mais exactamente, os campos electromagnéticos. Se um campo electromagnético repulsar um corpo,  com a mesma carga eléctrica, ao deslocar o campo electromagnético também deslocaremos o corpo. Esta ideia prometia muito, pois é fácil e rápido deslocar os campos magnéticos, basta passar electricidade por um circuito, olha, como o telégrafo faz, os sinais eléctricos são transferidos quase imediatamente. Se aplicarmos esta ideia num canhão seriamos capazes de velocidades de escape incalculáveis, foi essa a visão do nosso projecto. Todavia ainda tivemos de passar por vários obstáculos, infelizmente a ideia não se cumpriu em pleno.
Imagina então um tubo oco, da mesma grossura que o lápis que você segura, com uma pequena esfera no seu interior. Se fizermos atravessar uma corrente eléctrica pelo tubo a esfera vai movimentar-se no seu interior, mas será coisa pouca, pois a corrente atravessa o tubo instantaneamente, coisa que a esfera não faz. Com repulsão à frente e atrás a esfera mantém-se estática. O que fizemos foi ligar e desligar a corrente, a um frequência elevada, e os pequenos impulsos eléctricos deslocam progressivamente a esfera, dando assim a projecção esperada. Isto resolveu o problema da deslocação mas a velocidade resultante é confrangedora. Como a corrente eléctrica é mais rápida do que a esfera, esta sofre sempre um atraso provocado pelos impulsos que a ultrapassam. Pensamos nessa altura que havia um erro de concepção desde o princípio, que não visualizamos bem os movimentos dos campos magnéticos. Quase perdemos o investimento a favor de um projecto qualquer que somente promovia uma diferente qualidade de explosivo, mas uma ideia engenhosa ocorreu-nos! Afinal só tínhamos de alguma maneira de diminuir a influência do magnetismo à frente da esfera, ou mesmo dissipá-la! É bastante simples o que tivemos de fazer… hm… espera… acho que está na altura…deixa ouvir… – diz ele, sacando do relógio do colete.
Ouço com expectativa a máquina de comunicação. Já?! Já atingimos Lisboa, foi assim tão rápido? A mensagem não tarda a surgir.
– Aqui estação A, captamos o objecto, está no rumo e altura esperados! O vento está a soprar de nordeste a 15 nós.
Afinal parece não ser o que esperava, apesar do visível entusiasmo na sala.
– Não atingimos Lisboa, então?
– Ah, não. Ainda está nos ares de França, a estação que agora nos reportou está a 100 km a leste de Paris, ou o que resta dela. Ainda faltam 27 minutos até confirmarmos o embate em Lisboa. – diz o cientista. Ui, ainda temos que aguardar muito…
– De volta ao canhão… onde íamos nós?
Eu sei lá, ouvi as palavras todas mas não percebi nada! Nem me lembro que pergunta fiz e se pedia isto tudo, a única coisa que escrevi, a duplo sublinhado, foi “Não entrevistar cientistas!”.
– Ah, sim, a velocidade! – continua ele – O que pusemos em prática para obter a velocidade pretendida foi colocar o tubo onde fica o projéctil dentro de um outro tubo, que é aquele que você vê pela janela. À volta do tubo interior colocamos o circuito eléctrico, que serpenteia pelo tubo como se fosse um parafuso. E aqui reside o truque, o espaçamento entre os “aros” que estão na base do parafuso, por cima das nossas cabeças, é muito estreito, e progressivamente o espaçamento vai aumentando entre os “aros” até aos da ponta! A influência do magnetismo nos “aros” à frente do projéctil é menor que a influência do magnetismo dos “aros” atrás do projéctil, e a própria progressão do espaçamento contribui para acelerar o “disparo”! Pois a distância a percorrer pelos impulsos electromagnéticos no parafuso é sensivelmente menor quanto mais perto da ponta. Uma coisa engraçada também, é que a forma do parafuso faz rodopiar o projéctil, favorecendo a precisão e estabilidade do projéctil, algo que já fazemos com o canhão padrão. Se tivéssemos começado a pensar por este ponto, talvez a ideia do parafuso surgisse mais cedo e por esta altura a guerra já teria terminado! – brinca ele, com um sorriso entusiasmado.
– Olha, a que velocidade vai o projéctil? É o que mais interessa saber.
Ele perde o sorriso bruscamente, mas recupera-o um pouco.
– A aproximadamente 4000 kms por hora! São 6 vezes mais do que com um canhão padrão!
– Impressionante! Quatro mil…
Ele olha para o relógio por algum tempo e depois para a máquina. Mais algum tempo passa até que se ouve depois uma nova mensagem.
– Aqui estação B, visualizamos o objecto! Rumo e altura nos conformes! O vento sopra de norte a 25 nós.
– Hm, o vento mudou… – diz o cientista com ar preocupado – Sopra com mais força mas não deve ser significativo.
– Onde já vai? – pergunto.
– Passou sobre La Rochelle, um cidade portuária francesa.
Já está sobre o Oceano Atlântico! É tão, tão rápido, imagino-o a sobrevoar implacavelmente entre as nuvens, muito acima da água… que excitação poder seguir o curso em tempo real.
Ele retoma a aula de Física, explica a força exigida pelas máquinas andares abaixo de nós, mas não o ouço, a minha mente está no Oceano. Interrompo, e peço-lhe se podia enviar documentação para a minha morada, que escrevo-lhe, assim fica mais fácil para todos, já não consigo pensar direito e a adrenalina percorre-me pelo corpo. Os cientistas estão ocupados com as máquinas e papéis, os soldados estão pacientemente estáticos, mas eu não consigo ficar quieto, preciso de ir à varanda, de espaço!
O nevoeiro tornou-se espesso e o exterior é agora somente um branco brilhante, já mal se vê a ponta do longo tubo! A luz irradiante faz-me cerrar os olhos. Dói-me menos observar o Sol, o círculo branco perfeito no oceano de cinza. A imagem acalma-me.
Retorno à sala, os cientistas estão de redor da máquina de comunicações, parecem preocupados.
– Cabo, comunica a estação D para reportar a força do vento em cada minuto. – diz um dos cientistas.
– Estação D, deve reportar a força do vento em cada minuto, ficamos a aguardar.
– O que se passa? Qual é a estação D? – pergunto ao cientista-chefe.
– Aveiro, uma cidade a uns 200kms a norte de Lisboa. – diz o cientista num sussurro – Tememos que a mudança do vento possa ter desviado o projéctil da trajectória prevista. Já tínhamos em conta estas variáveis, claro, a própria trajectória forma uma curva e por muito que queiramos a precisão não será fiável. A questão agora é saber se Lisboa será atingida ou teremos de usar outro projéctil.
– Podemos ficar aqui o dia todo, se for preciso. – diz o Tenente, quebrando o seu longo silêncio – Enquanto temos as estações a comunicarem as direcções dos ventos, não precisamos de ––
– Aqui a estação C, avist *zrzrz* o objecto! Calculamos que está fora do rum*zrz*evisto, novo rumo 010º. Vento vindo de norte a 15 nó*zrz*
– Então, há problema? – questiona o tenente aos cientistas, que precipitaram-se para os papéis e máquinas – Devo ordenar o carregamento de novo ôbus?
Enquanto eles estão de volta dos cálculos, pergunto ao cientista-chefe que tal lhe parece a situação.
– O projéctil entrou agora em Espanha, mas ainda teremos de estudar o rumo actual. Creio que ainda vamos atingir Lisboa.
Ok, já vai em Espanha, a terra maldita, repouso de nossos irmãos. Já não falta muito.
– Aqui *zrzrz*ção D, vento de norte a 10 *zrzrz*.
– A comunicação parece estar a falhar, o que se passa? – pergunta o tenente.
– É capaz de ser o nevoeiro, está muito cerrado. – supõe um soldado perto da varanda.
– Ok, já efectuamos os cálculos. – diz um dos cientistas – Cremos que a mudança não foi muito significativa, contudo já não deveremos atingir nenhumas das áreas estratégicas, o projéctil vai mais para baixo, para junto à foz.
– É só estalagens e armazéns, nada de importante, mas desde que acertemos em algo cumprimos o objectivo. – conclui o tenente.
– Senhor, no pior dos casos o embate será na foz, onde está o submarino. Sugerimos assim que ordena que o submarino se afaste.
– Espera, deixa-me pensar. – diz o tenente – Tens a certeza?
– A certeza não temos, mas sugerimos veemente.
– Ok, mas não muito longe, precisamos que ele confirme sem demora se atingimos Lisboa, ou mesmo se é preciso correcções de trajectória. Cabo, comunique ao submarino para afastar 5 léguas.
– Certo. Cardume, deve recuar 5 braçadas, repito, deve recuar 5 braçadas.
Todos na sala de olhos pregados ao Cabo e à máquina. Nova mensagem surge.
– A *zrzrz* vento de n*zrzrz* nós.
– O quê?! – exclama o tenente – O que é que ele disse?
– Era uma mensagem da estação D, seguramente. – diz um cientista – Seria demasiado rápido para ser a resposta do submarino.
– Mas o que é se passa com a máquina, Scheiße!!
– É provável ser por causa do nevoeiro…
Scheiße, primeiro os ventos, agora os nevoeiros, Cabo, faz qualquer coisa, amplifica o sinal, qualquer coisa, homem!
– Estação A, deve aumentar os sinais para a frequência 5 Mhz, passaremos a sintonizar neste espectro, estamos com problemas de recepção.
– Diz também para o submarino se afastar, soldado! – suplica um cientista. – Nem a estação A deve ter apanhado a mensagem!
– Certo! Cardume, deve recuar 5 braçadas, repito, deve recuar 5 braçadas.
A tensão, Mein Gott! Mas eles estão a ouvir-nos? Ninguém mais solta um pio.
– Daqui a estação D, avistamos o objecto! Calculamos que está fora do rumo previsto, novo rumo 010º. Vento vindo de norte a 20 nós.
– Ouve-se na perfeição! – sussurra o cientista-chefe – O projéctil deverá atingir Lisboa em minutos.
Puxa devagar o relógio do seu colete. Ninguém mais abre a boca. Ninguém se mexe, não entramos em euforia para não agoirar o momento, mas sentimos a tensão e o orgulho a palpitarem na sala. Nem me atrevo a respirar.
O tempo parece alongar-se até que por fim um suspiro do cientista-chefe.
– É agora. Atingimos Lisboa.
Demoramos todos a reagir. O Cabo desperta-se após um tempo e aproxima a caixa tremelicante à sua boca.
– Cardume, confirma o ovo na praia? Repito. Confirma o ovo na praia?
Um silêncio longo insuportável.
– Cardume, confirma o ovo na praia, repito, confirma o ovo na praia?
Silêncio.
– Se calhar é o nevoeiro. – diz timidamente alguém.
Tenente e cientista-chefe entrecruzam os olhares, não convencidos que o problema seja o nevoeiro. Partilham um olhar de assombro, arregalando os olhos.
Qual seria a probabilidade?

FIM

Nota: Inspirada livremente no Canhão de Paris.

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Sobre ruialex

escritor curioso e amador
Esta entrada foi publicada em Conto, Electropunk, Ficção-Científica com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a Canhão de Lisboa

  1. Se há erros científicos não faço ideia. Mas gostei mais do outro conto.

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  2. ruialex diz:

    Eu quase tenho a certeza que há, não distinguo um nó de uma milha náutica. Também gosto muito mais do outro 🙂

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