Tália

João é um jovem que nutre admiração pelos humoristas e cronistas da nossa praça, e admira as perspicácias e humor com que relatam os acontecimentos do dia-a-dia. Possui um desejo em tornar-se num desses tipos e colaborar em periódicos, revistas e antologias com as suas observações e pensamentos. Para tal, começou por onde muita gente começa hoje em dia: criou um blog. Poderá experimentar as ferramentas disponíveis nas redes sociais, ganhar um grupo de seguidores e seguir e comentar noutros blogs, afim de expor o seu trabalho e ganhar notoriedade, até finalmente entrar em eventos e círculos frequentados pelos autores que admira.
É esse o plano. Infelizmente não é essa a realidade. Após muitos meses, há ainda poucas entradas no blog – longe do que seria habitual nesse género de blog –, com qualidade variável e nem sempre suficientemente humoroso. Concludente é o baixo, baixinho número de visitas diárias.
João é até um bom escritor, já escreveu vários contos e principiou a escrever um romance, mas chega à infeliz conclusão que não tem jeito para o humor. Sabe, contudo, que a via mais rápida para o reconhecimento é pelo Humor; os autores mais lidos e comentados, os mais publicados, são os humoristas ou com queda para o humor. Até mesmo os cronistas ditos sérios pautam os seus textos com humor, afinal o humor é o maior atestado de inteligência que se possa apresentar, o que muito apraz estes pensadores.
A persistência do João é inegável, mesmo sem sentido de humor ele mantém-se atento ao mundo actual, procura observar por diferentes pontos de vistas variados assuntos. Para ele é um desafio, quer provar a si próprio que é inteligente o suficiente para levar a tarefa ao cabo.
Diz-se que a persistência gera frutos. Assim mesmo acontece-lhe num dia…
– Chatice, não me ocorre nada. – diz ele, folheando um periódico. – Mas como é que esta malta faz? Principalmente os que actualizam o Twitter em cada 15 minutos! Até parece fácil…
Farto de tanto ler, amachuca o jornal, transformando a sua raiva numa bola de papel e chuta-a para uma parede. Senta-se na cadeira e encosta a sua cabeça sobre os seus bruços na secretária. Suspira demoradamente.
– Fogo, tenho tanta vontade de fazer isto mas não consigo. Que neura! Seria capaz de dar tudo para ter este talento!
– Gosto de ouvir essas palavras. – ouve ele, por trás de si. – É esse mesmo o espírito.
João ergue-se sobressaltado, quase derrubando a sua secretária. Apoiando-se com aflição, olha repentinamente para donde vem a voz. No meio do seu quarto, em pleno ar flutua uma presença feminina. Traja um leve vestido branco e brilhante que é embalado por um vento que não se sente. Os seus ombros nus são acariciados pelos ondulantes cabelos morenos e, por trás destes, uma máscara esconde o seu rosto. Uma máscara de jóia branca trabalhada, com as feições de um sorriso maquiavélico e divertido. Ela empunha um bastão ornamentado que lhe confere autoridade.
– Quem és tu? – pergunta João, atento à visão à sua frente.
– Sou a Tália, a Musa da Comédia. Vim em teu auxílio. – diz ela, com uma voz segura e cristalina. Ergue o bastão e aproxima-o da sua máscara. – Reconheces a máscara, de certeza. – afirma ela ao João. Reconhece-a, sim, a máscara cómica que, a par com a máscara trágica, representa a Arte, cultivada pelas Musas que, ao longo dos tempos, inspiraram muitos homens a realizarem obras e feitos memoráveis e os seus nomes ficaram escritos nas páginas da História.
– Vais… ajudar-me nas crónicas? Ser um tipo famoso?
– Isso mesmo.
A Musa aproxima-se do João, num passo gracioso. Retira a máscara por cima da cabeça, deixando o cabelo lustroso dançar pelo pescoço e ombros. Ergue o seu rosto, atrevido e jovial, e João contempla os olhos azuis da pequena, profundamente encantado como inumeráveis homens ficaram na presença da Musa.
– Rapaz, todo o artista precisa de alguém que estimula a sua imaginação, que lhe ocupe a mente, que o incentiva e que o artista lhe possa dedicar o esforço resultante. Quem melhor do que uma das Nove Musas? Que inspirou os mais sagazes satíricos, como o Cyrano de Bergerac, José du Bocage e Jon Stewart?
– Sim, Musa, ficaria muito agradecido por isso!
– Podes tratar-me por Tália.
Ela recolhe as mãos atrás das costas, caminha num vai e vem e, com ar empinado, acrescenta:
– Claro, vou pedir algo em troca. Não é qualquer um que é merecedor da minha inspiração, é preciso que se faça um sacrifício. Só para mostrar que está mesmo disposto, sabes? Todos os meus homens assim fizeram. Continuas, então, a querer “dar tudo”?
– Sim… – concorda ele, já com algum receio, bem que lhe parecia ser demasiado fácil. – Oh, a minha *glup* alma?
– Não é preciso muito. E também não tenho interesse em esperar muitos anos até que morras. Além do mais, é a minha mãe quem lida com o assunto das almas.
João nem repara na ironia professada por um ser imortal, fascinado como está na beleza jovial dela.
– Apenas perdes uma coisa pequena, o teu emprego. Seria prova suficiente. Isso ajudaria-te, pois a virtude do humor é a capacidade de se ser optimista em situações desagradáveis. Como podes ter sentido de humor se vives uma vida despreocupada?
– Faz sentido, mas…
João questiona a ideia proposta, claro que não seria coisa pequena, mas pensa depois, como comediante, no furor que faria em festas, ser convidado!, ter confiança entre miúdas giras, toda a gente a querer ouvir o que ele tem a dizer. E depois com os contratos para a tv, os patrocínios de empresas como a PT e Meo, tudo isso compensaria perder o seu emprego…
João revê mais uma vez o rosto dela, o sorriso expectante. Decide-se.
– Aceito.
A musa desaparece no preciso momento em que o telefone dele toca.
– Olá João, aqui é a assistente do director de Recursos Humanos, lamento dizer que estás despedido. Muito boa tarde!
Tal como combinado, é-lhe dada a oportunidade. João senta-se à frente do computador, pronto para começar a escrever. Recorda do sorriso da Musa, a voz cristalina dela ecoa na sua mente e tudo o resto lhe parece silencioso e cheio de luz. Começaria a encontrar o lado engraçado do ocorrido e a escrever humor. Os dedos descansaram sobre o teclado mas as teclas não seriam mais premidas nesse dia. Os seus olhos humedeceram-se e finalmente larga-se num pranto, enganado como um menino indefeso.
***
No Olimpo, lar dos deuses e demais imortais, a Musa recolhe-se nos aposentos que partilha com as suas irmãs. Procurando fugir das atenções, tenta devolver a máscara cómica no sítio de onde retirara mas a sua irmã apanha-a.
– Melpôneme! – exclama, irada, a Tália. – Devolve-me a minha máscara que eu vi o que tu fizeste, e toma a tua!
– Ai, apanhaste-me. Ficaste chateada? – diz Melpôneme, apertando a máscara trágica no peito.
Tália cobre o seu rosto, envergando a máscara cómica que parece tão assustadora quanto o seu riso é maquiavélico.
– Ah, ah, ah. Claro que não! Adorei o que fizeste ao homem, há algum tempo que não me ria tanto!
Fim
Epílogo
João publica um romance aclamado pela crítica e pelo público e é agraciado com o Prémio Camões.
Advertisements

Sobre ruialex

escritor curioso e amador
Esta entrada foi publicada em Conto, Sobrenatural com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a Tália

  1. Bem… quando comecei a ler fiquei: glup! Retrato de nós, escritores a tentarem mostrar o trabalho em blogs.
    E no final pensei… a maldosa vai dar cabo da vida do rapaz. Mas não.
    Que texto inesperado!

    Gostar

  2. ruialex diz:

    obrigado pelo comentário!
    olha, também engoli em seco quando li o teu conto, também uma história de escritores.
    O teu é bonito mas também cru: mais fiel à realidade. Eu fui mais simpático com o meu rapaz, dando-lhe um prémio e tudo.

    Gostar

olá, qualquer palavra é útil, mesmo essa em que está a pensar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s